SÍRIA – QUEM PODE VENCER O ESTADO ISLÂMICO?

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Enquanto os bombardeios promovidos pela aviação russa conseguiram conter as várias facções dos “rebeldes” sírios, o Estado Islâmico conseguiu alguns avanços recentemente. Várias regiões localizadas ao sudeste de Aleppo, a segunda cidade do país, teriam sido tomadas após ter controlado a importante cidade de al-Safira.

As linhas de suprimento entre as cidades de Hama e Aleppo ficaram comprometidas. As tropas do Exército e os milicianos do Hizbollah e das milícias xiitas detiveram a ofensiva para controlar o corredor.

O avanço do Estado Islâmico aconteceu por causa do enfraquecimento dos enfrentamentos com a al-Nusra e outros grupos “rebeldes” que acabaram entrando no foco da atuação do governo, principalmente em Idlib.

O verdadeiro objetivo do governo da Federação Russa não é derrotar o Estado Islâmico e as demais organizações “rebeldes” que contam com o apoio da reação do Oriente Médio e mundial. A política dos russos busca forçar negociações que estabilizem a situação na região, que evitem o contágio sobre o Cáucaso e o sul da Rússia, assim como fortalecer o papel do país, que é um potência regional de primeira ordem.

A visita de John Kerry, o chefe do Departamento de Estado norte-americano, a Sochi (sul da Rússia), onde se encontrou com Vladimir Putin (presidente russo) e Serguei Lavrov (ministro das Relações Exteriores russos), estabeleceu as bases do acordo que buscou colocar em pé uma frente única para estabilizar o Oriente Médio. A ala encabeçada pela Administração Obama tenta se manter como a política preferencial dos monopólios perante o fortalecimento da ala direita, fascistoide. Essa ala já controla as duas câmaras do Congresso e ameaça vencer as eleições nacionais que acontecerão no próximo ano. No Oriente Médio, o governo turco de Erdogan e as reacionárias monarquias do Golfo Pérsico estão por trás do apoio aos grupos “rebeldes”. O objetivo é avançar no controle da região e em se contrapor à presença do Irã e os grupos “coligados”, principalmente o Hizbollah, a poderosa milícia libanesa, e as milícias xiitas.

DE ONDE VEM A FORÇA DO ESTADO ISLÂMICO?

O Estado Islâmico é uma espécie de cachorro louco que a reação tenta usa-lo para os próprios interesses. O mesmo acontece com a al-Qaeda e os demais “rebeldes moderados”. O problema é que esses grupos têm se desenvolvido por causa do desenvolvimento da crise na região. O controle é apenas parcial e a tendência é a que esse controle, apesar dos acordos, se perca.

O confronto no Oriente Médio, na prática, confronta duas políticas principais. O nacionalismo árabe que, mesmo confuso, busca um distanciamento da intervenção aberta do imperialismo, e a reação que busca impor os próprios interesses regionais da mão da ala mais direitista do imperialismo. A reação no Oriente Médio está encabeçada pela Arábia Saudita, as demais monarquias do Golfo, a Jordânia, o Egito e os sionistas israelenses.

O Estado Islâmico se desenvolveu, principalmente, a partir do apoio da Arábia Saudita e do governo turco de Erdogan, e, solapadamente, do imperialismo e de Israel. O objetivo era direciona-lo contra o Irã, os aliados, como o regime sírio de al-Assad, e as milícias xiitas da região, principalmente o Hizbollah, a poderosa milícia libanesa, e as milícias xiitas iraquianas.

A ação russa deixou claro que a suposta “invencibilidade” do Estado Islâmico não passava de uma miragem. No momento atual, a força deste grupo passa pelo financiamento a partir do petróleo, que direciona principalmente para a Turquia e os petrodólares sauditas.

Há duas políticas imperialistas que se confrontam. A política encabeçada por Obama/ Merkel/ Hollande busca saídas negociadas para a crise, pelo menos até onde isso for possível. A ala direta busca uma saída de força como pode ser visto nas políticas propostas colocadas pelos pré-candidatos do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos.

A vitória da ala direita do imperialismo implicaria em política muito mais duras inclusive para a América Latina.

AS NEGOCIAÇÕES EM VIENA COM A PARTICIPAÇÃO DO IRÃ

Um dos principais objetivos da intervenção russa na Síria foi alcançado, a participação do Irã nas negociações, que têm lugar em Viena, com o objetivo de buscar uma saída negociada à crise. Na reunião que começou no dia 30 de outubro, participaram, além do Irã, os Estados Unidos, a Turquia, a Arábia Saudita, a Grã Bretanha, o Egito, o Iraque, a Jordânia e a China. Pela primeira vez, desde 1979, os Estados Unidos e o Irã negociam abertamente problemas do Oriente Médio, além de questões relacionadas diretamente com o próprio Irã.

A saída do presidente al-Assad já foi acordada e aceita pelo grupo que o apoia, os alawitas. Este grupo, apesar de ser uma minoria, domina as regiões localizadas no Mediterrâneo, ao norte do Líbano, e a capital do país, Damasco. Os bombardeios dos russos, junto com a intervenção militar direta do Hizbollah e as milícias xiitas, permitiu criar um enclave alawita a partir do qual os “rebeldes” passaram a enfrentar fortes ataques.

A crise avança a passos largos não somente na Síria, mas também no Iraque, no Egito, no Líbano, na Jordânia e no Iêmen.

A Administração Obama abriu mão os aliados tradicionais, os sauditas e os sionistas israelenses, na nova política para o Oriente Médio, numa movimentação que começou em 2012 quando ficou claro que os Estados Unidos seriam derrotados no Afeganistão e que a política da reação na região conduziam à desestabilização em larga escala. O descontentamento desses aliados, ligados tradicionalmente à ala tradicional do imperialismo, aumentou.

O aprofundamento da crise tem obrigado a buscar “saídas” para a crise. Os sauditas negociam com os russos, assim como os sionistas israelenses. Insinuaram fazê-lo também com o Irã, mas o estouro da crise no Iêmen acabou abortando a tentativa de aproximação.

O imperialismo norte-americano ficou a reboque da situação. Não somente foi derrotado militarmente no Iraque e no Afeganistão, mas não conseguiu fazer decolar os “próprios rebeldes”. A falta de controle de grupos como a al-Nusra (a al-Qaeda na Síria), o Estado Islâmico e até de grupos ligados à Irmandade Muçulmana, levou à aproximação com os russos, o Irã e a China. Mas o grau da crise do imperialismo no Oriente Médio fica ainda mais dramática quando na frente única acabaram entrando o Hizbollah, os curdos e as milícias xiitas, que são controladas diretamente pela força de elite da Guarda Islâmica do Irã, os Quds.

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ESTADOS UNIDOS – JUROS E CRISE CAPITALISTA MUNDIAL

Como a alta dos juros afeta os Estados Unidos, os países desenvolvidos e o Brasil?

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Na reunião da Reserva Federal (o banco central dos Estados Unidos), que aconteceu no dia 28 de outubro, as taxas de juros foram mantidas perto de 0%, apesar da pressão dos monopólios para que fossem aumentadas.

A Reserva Federal, que é controlada diretamente pelos principais bancos, alegou que a economia não estaria crescendo o suficiente como para suportar o aumento dos custos dos empréstimos. Em 2007, a taxa de juros se encontrava acima dos 4%. Em 2008, foi rebaixada para 2% e, desde 2009, tem sido mantida em 0,25%.

Em 2008, o fechamento de vagas de trabalho, de acordo com as estatísticas oficiais, chegou às 765 mil.

O suposto crescimento econômico tem sido sustentado, de maneira muito contraditória, por meio do repasse de recursos ilimitados aos monopólios. Em 2008, o sistema financeiro mundial quebrou e todos os monopólios sofreram enormes perdas. Os monopólios foram resgatados por meio de trilhões, escalando o endividamento a níveis inacreditáveis. Somente a dívida pública dos Estados Unidos passou dos US$ 6 trilhões para mais de US$ 18 trilhões; ou seja, em apenas sete anos a dívida que tinha sido acumulada desde a Independência (1764) triplicou. E se ainda forem somados os recursos não provisionados com as aposentadorias, MediCare, gastos remanescentes com as guerras do Iraque e do Afeganistão, dívidas das empresas, consumidores e estudantes, o endividamento geral norte-americano dispara para aproximadamente US$ 100 trilhões, ou cinco vezes a “produção” anual. A palavra produção deve ser colocada entre aspas, pois, devido às manipulações estatísticas e ao estado de putrefacção da economia, entram nos cálculos os componentes da especulação financeira. Por exemplo, as tarifas bancárias e os juros entram no cálculo do PIB (Produto Interno Bruto).

O CONTO DE FADA DOS JUROS

A propaganda imperialista tenta fazer acreditar que os juros baixos têm como objetivo facilitar as compras ultra parceladas que movimentam a economia dos Estados Unidos. Na realidade, isso é apenas um dos componentes do problema.

A economia capitalista se encontra encurralada por uma brutal crise de produção, muito além de uma “mera” crise financeira. As mercadorias não encontram saída por causa da crise, do empobrecimento, da queda do poder de compra das massas. Um certo desenvolvimento da economia é a base, apenas, para realizar as atividades especulativas das quais os monopólios extraem o grosso dos lucros. Mas há um outro componente muito crítico.

Em 2008, as políticas neoliberais colapsaram. Os monopólios não conseguem mais existirem sem receberem repasses de recursos trilionários do estado. Desde 2009, passaram a receber empréstimos ilimitados a taxas de 0,25% ao ano. Esses recursos são direcionados para a especulação financeira. E nem mesmo assim os monopólios conseguiram se recuperar. Vários outros programas têm repassado outros trilhões em paralelo.

Nenhuma engenharia financeira consegue salvar o capitalismo ultra parasitário da crise. Os volumes de capitais fictícios são gigantescos, e somente crescem. O capitalismo de estado, o capitalismo funcionando nas costas do estado burguês, é uma caraterística do imperialismo que representa a prova material de que a sociedade tende a se organizar de maneira planejada e centralizada, e que a crise tem na origem a propriedade privada da riqueza mundial pelas 150 famílias que dominam o mundo.

UMA MOEDA “PAPEL HIGIÉNICO”?

O mundo tem sido inundado com o dólar norte-americano desde o final da Segunda Guerra Mundial. Os acordos de Bretton Woods (1944) estabeleceram a conversibilidade do dólar ao padrão ouro. Bretton Woods sofreu um calote em 1971, durante a Administração de Richard Nixon, devido à impossibilidade de enfrentar os gastos da Guerra do Vietnam.

O principal mecanismo para emitir dólares é a emissão de títulos públicos. Os principais detentores desses títulos são a Reserva Federal, com US$ 4,5 trilhões, a China, o Japão, a Arábia Saudita, o Brasil e a Rússia. O Brasil possui mais de US$ 260 bilhões em títulos do Tesouro Norte-americano que, supostamente, fariam parte da, enfraquecida, blindagem da economia. Na realidade, trata-se de um mecanismo para absorver recursos da economia mundial com o objetivo de sustentar os lucros dos monopólios que, de outra maneira, não conseguiriam sobreviver.

O verdadeiro objetivo por trás da pressão pela alta dos juros se relaciona com a própria podridão da economia. O volume de títulos podres que é comercializado tem crescido violentamente e já supera os US$ 6 trilhões. Conforme a crise tem se aprofundado, esse volume tende a aumentar. O problema é que com a acumulação desses títulos podres pela Reserva Federal, a partir dos programas QE (quantitative easing ou alívio quantitativo) as taxas de lucro dos chamados “high yields”, ou títulos altamente podres, despencaram de 15%, há dois anos, para menos de 4%, para desespero dos especuladores financeiros.

O capitalismo se encontra numa encruzilhada da qual não consegue sair. Não foi possível colocar em pé uma nova política alternativa ao “neoliberalismo”, desde 2008, devido ao gigantesco parasitismo. As políticas tampam um buraco, mas acabam destampando outro.

Para o próximo período, está colocado um novo colapso capitalista de proporções muito maiores que os anteriores. E esta é a base que voltará a colocar em movimento a classe operária mundial, principalmente nos países centrais.

O IMPACTO DO INEVITÁVEL AUMENTO DOS JUROS SOBRE O BRASIL?

A próxima reunião da Reserva Federal acontecerá em dezembro e a seguinte em março de 2016. A presidente da Reserva Federal, Janet L. Yellen, declarou que as taxas de juros deverão aumentar no próximo período. Segundo o FOMC (Federal Open Market Committee), que se reúne dois dias antes e estabelece a política, apesar da crise mundial, a situação tenderia a melhorar e que a alta dos juros deverá acontecer em breve.

A preocupação das políticas monetárias é manter os lucros dos monopólios a qualquer custo. O problema seriam “apenas” os “fatores imprevisíveis”, tais como a crise na China, a enorme queda dos preços do petróleo e das matérias primas, a crise nas bolsas, a recessão industrial em escala mundial e o aprofundamento generalizado da crise capitalista mundial em direção a um novo colapso de grandes proporções.

A política prevista é a de aumentar as taxas de juros nos Estados Unidos de maneira gradual, em aproximadamente 1% ao ano. Mas há sempre os “imprevisíveis”. No início de 1980, no auge da crise aberta em 1974, os juros chegaram a 20,5%.

A política de juros baixos para os empréstimos de longo prazo, na década passada, acabou gerando a bolha imobiliária que estourou em 2008. Nos anos seguintes, a migração de capitais levou ao crescimento das bolhas nos países atrasados que deverão estourar no próximo período.

O impacto da alta dos juros, nos Estados Unidos, sobre o Brasil é que haverá uma fuga de capitais para o “porto seguro” dos títulos públicos dos países centrais. A atração acontecerá por causa da alta dos juros e também pelos ataques promovidos contra o Brasil pelas agências qualificadoras de risco, que, controladas pelos monopólios, estão colocando a dívida pública brasileira no status lixo.

A política da alta dos juros nos Estados Unidos também tenderá a acirrar as contradições com os demais países desenvolvidos, pois se o imperialismo europeu e japonês mantiverem as taxas de juros baixos haverá, inevitavelmente, uma corrida pelos títulos norte-americanos.

O acirramento das contradições inter-imperialistas e com os países atrasados está colocado à ordem do dia no próximo período. É a política do “salve-se quem puder” a todo vapor. O novo elemento que entrará em cena, também de maneira inevitável, e a movimentação da classe operária mundial.

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DEUTSCHE BANK – À BEIRA DO PRECIPÍCIO?

NÃO, É O SISTEMA FINANCEIRO MUNDIAL!

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O maior banco alemão, o Deutsche Bank, anunciou perdas por mais de seis bilhões de euros no terceiro trimestre, a demissão de mais de 35 mil funcionários, o fechamento das operações em 10 países e a suspensão da distribuição de dividendos para os acionistas neste e no próximo anos. Esta última medida acontece pela primeira vez desde a década de 1950. Somente na Alemanha serão demitidos 10 mil trabalhadores.

A contaminação com títulos das dívidas públicas acumulam trilhões e com os derivativos financeiros ultrapassam os US$ 75 trilhões, neste caso são US$ 5 trilhões a mais que o tradicional encabeçador da especulação financeira, o banco norte-americano JP Morgan.

No mês de abril do ano passado, o Deutsche Bank foi obrigado a levantar um bilhão e meio de euros para a chamada Camada 1 de capital. Um mês depois, vendeu oito bilhões de euros em ações concedendo descontos de 30%. No mês de março deste ano, o Banco não passou nos testes de estresse dos bancos europeus. Em abril, chegou a um acordo com o Departamento de Justiça norte-americano para o pagamento de US$ 2,1 bilhões relacionados com a manipulação da taxa Líbor. Esse valor representou uma parte insignificante dos ganhos obtidos. Em junho, dois presidentes do Banco renunciam no meio da eventual bancarrota da Grécia. No dia 9 de junho, a agência qualificadora de riscos, Standard & Poor’s, rebaixou a nota para BBB+, apenas a três níveis da qualificação “lixo”.

O segundo maior banco alemão, o Commerzbank, se encontra em situação igual ou pior.

As acusações de manipulação da taxa Líbor, que levou a multas milionárias, e de lavagem de dinheiro está muito longe de ser exclusividade dos bancos alemães. Essa é a norma de todos os grandes bancos.

ALEMANHA: ATÉ QUANDO SERÁ A FORTALEZA DA EUROPA?

A dramática crise do banco mais forte do país mais forte da Europa, a Alemanha, representa apenas o prenúncio do que estar por vir. O novo colapso que aparece no horizonte será muito pior que o de 2008 e atingirá a todos os países em escala mundial. Os estados se encontram hiper endividados por causa dos trilionários recursos direcionados ao resgate dos monopólios

O sistema financeiro está direcionado à especulação financeira, que domina as atividades de todas as grandes empresas.

A especulação financeira se encontra sustentada em cima de recursos públicos

Todos os fatores que levaram ao colapso de 2008 continua em pé e mais fortes do que nunca.

No caso da Alemanha, os bancos regionais estão tão contaminados que em 2013, o BCE não conseguiu inclui-los no controle direto. E isso estaria acontecendo no coração do capitalismo europeu. A situação dos demais bancos europeus é ainda pior.

O mundo foi convertido numa espécie de casino financeiro, ou banco imobiliário, onde os grandes especuladores são resgatados pelo estado dentro da nefasta política do TBTF (iniciais em inglês para Muito Grandes Para Falirem).

Até agora, tem sido o ponto forte do capitalismo europeu. Milhões de imigrantes dos países em crise vão trabalhar na Alemanha. Boa parte da indústria europeu gira em torno da máquina industrial alemã. Mas para sustentar esses mecanismos o imperialismo alemão tem sido obrigado a evitar o colapso dos países da periferia, o que tem aumentado o contágio em direção ao centro. A indústria já entrou em recessão. O “milagre” alemão está com os dias contados.

CRISE NO MAR DA CHINA?

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O imperialismo norte-americano deslocou, recentemente, um navio de guerra, o USS Lassen, para regiões próximas às ilhas artificiais que o governo chinês está construindo no Mar da China, especificamente no arrecifes de Subi e Mischief, no arquipélago de Spratlys. Essa região é um dos três pontos do planeta onde há um alto potencial de estouro de um conflito militar de larga envergadura.

As tensões escalaram. O Ministério da Informação da China declarou que “a China responderá com firmeza às provocações deliberadas de qualquer país. Continuaremos monitorando de perto as áreas relevantes no mar e o espaço aéreo, e tomaremos todas as medidas necessárias de acordo com as nossas necessidades.” O ministro das Relações Exteriores, Lu Kang, declarou que as provocações poderão acelerar o ritmo da construção das ilhas artificiais.

O Pentágono declarou que o objetivo é garantir a liberdade de navegação e a liberdade do comercio na região e que manobras parecidas também incluirão construções feitas pelo Vietnam e as Filipinas. O imperialismo também incita a Malásia, Brunei e Taiwan com o objetivo de se posicionar como árbitro e justificar o agressividade militarista. Nada menos que a metade do orçamento do Pentágono foi deslocado para a região com o objetivo de conter o expansionismo chinês.

Pelo Mar do Sul da China trafegam nada menos que US$ 5 trilhões em mercadorias.

As contradições entre as políticas do imperialismo tendem a se acentuar conforme a crise capitalista avança. Da mesma maneira, acontece com as contradições com as potências regionais. O objetivo é salvar os lucros a qualquer custo.

QUAL É O OBJETIVO DA ESCALADA AGRESSIVA DOS ESTADOS UNIDOS?

Em boa medida, a escalada da agressividade norte-americana no Mar do Sul da China representa uma exceção no contexto da desescalação promovida pela Administração Obama na região e na Ucrânia com o objetivo de estabilizar o Oriente Médio.

O Pentágono busca pressionar o Congresso para que o orçamento militar não seja reduzido agora que está em discussão o aumento do teto da dívida.

Ao mesmo tempo, o controle da região de Ásia Pacífico passa pela imposição militar e a manutenção das alianças por trás da política de contenção da China.

A China se encontra encurralada pela política de contenção norte-americana. Um dos componentes fundamentais do Novo Caminho da Seda é evitar o gargalo do Estreito de Malaca, por onde trafegam uma boa parte das exportações e das importações chinesas. Trata-se de um estreito com apenas 30 quilômetros de largura que é controlado pela Marinha dos Estados Unidos, por onde circula mais de 80% do petróleo consumido na China.

A política chinesa para enfrentar a agressividade imperialista é fundamentalmente defensiva, principalmente, levando em conta a desvantagem em tecnologia militar, que fica muito clara quando se avaliam os porta-aviões e os submarinos norte-americanos. Somando os fatores políticos e econômicos, a capacidade de expansão da China é bastante limitada na situação política atual. As ações dos chineses têm como objetivo conter a pressão do imperialismo contra a “proteção” da “liberdade de navegação”. Entre elas estão o Novo Caminho da Seda, o Novo Banco dos BRICS e o Banco Asiático de Investimentos de Infraestrutura, do qual participam a Alemanha, a França, a Itália e a Inglaterra.

QUAL É O SIGNIFICADO DA ESCALADA DA AGRESSIVIDADE DO JAPÃO?

O grande temor da China é o envolvimento do Japão nas disputas. O Japão está sendo usado como um intermediário pelos Estados Unidos para impor o controle militar da região.

Recentemente, o Japão realizou manobras conjuntas com as Filipinas no Mar do Sul da China, assim como outras manobras com outros países do Sudeste Asiático. O Japão também acordou com os Estados Unidos começar a patrulhar o Mar do Sul da China neste ano.

O Japão representa uma das duas principais potências imperialistas industriais junto com a Alemanha. A necessidade de garantir o suprimento de matérias primas o posiciona como um concorrente estratégico tanto da China como dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a contenção do Japão faz parte da política norte-americana do controle da Costa Oeste.

O Japão passou a ser impulsionado como uma espécie de “proxy” da política militar dos Estados Unidos. Mas, o desenvolvimento da crise conduz, inevitavelmente, à política do “salve-se quem puder”, o que implica na tendência ao acirramento das contradições e ao enfraquecimento da frente única por meio da qual o imperialismo norte-americano tem controlado o mundo a partir de 1945.

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Neoliberalismo e esquerda – Parte 3

O refluxo do movimento operário no Brasil

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Nos anos de 1990, o movimento operário entrou em refluxo. As políticas aplicadas durante o governo de Fernando Collor levaram ao fechamento de várias indústrias e às demissões em massa.

A última grande greve de uma categoria nacional de ponta aconteceu em 1995, e foi quebrada pelo próprio Lula. O movimento metalúrgico tinha entrado em refluxo com os planos Cruzado. As últimas greves metalúrgicas importantes aconteceram em 1991, na cidade de São Paulo, na Metal Leve (zona sul de São Paulo) e na Voight (zona oeste de São Paulo).

O refluxo consolidou o poder da burocracia que passou a dominar amplamente as principais organizações de massas, a CUT, a UNE e o MST. Se consolidou a frente única entre o PT-PCdoB e as organizações da esquerda pequeno-burguesas.

Os governos de FHC foram apoiados pela CUT que tinha sido controlada pela ala direita da Articulação, liderada por Vicentinho, o presidente do Sindicato Metalúrgico de São Bernardo do Campo. A esquerda aderiu a essa política ou ficou acuada. O movimento operário ficou acuado por causa das demissões em massa, as privatizações, as terceirizações, os ataques aos direitos trabalhistas, a desaceleração industrial, o fechamento de empresas. O endividamento público escalou, a partir de 1992, quando os futuros três figurões da área econômica do governo FHC (Armínio Fraga, futuro presidente do Banco Central, Pedro Malan, futuro ministro de Fazenda e Murilo Portugal, futuro presidente do Tesouro), num final de semana, em Luxemburgo, que é um paraíso fiscal, conseguiram a mágica de quase dobrar a dívida pública brasileira. Com os novos títulos ultra podres, que passaram de US$ 60 bilhões para US$ 110 bilhões, foram “compradas” as empresas públicas “privatizadas” por preços obscenos que, na maior parte dos casos, não ultrapassavam um décimo do valor.

Os dois governos de FHC entregaram o Brasil aos monopólios, seguindo a receita do chamado Consenso de Washington (1989), o que levou a um enorme desgaste da direita. Após a crise de 1997 na Argentina, que também tinha sido devastada pelos governos neoliberais de Menem (1989-1999), a crise se aprofundou no Brasil. No início da década passada, aumentou o descontentamento social no Brasil.

A partir de 2002, as políticas neoliberais implantadas por FHC tinham se esgotado. O movimento grevista começou a despertar, mas foi rapidamente contido com a eleição de Lula à presidência da República, que aconteceu de comum acordo com a direita e o imperialismo. A frente única entre a esquerda frentepopulista, formada pelo PT e pelo PCdoB, e a esquerda pequeno-burguesa, que formava a base de apoio das políticas neoliberais, acabou rachando. A crise do regime político ficou evidente com o “escândalo do Mensalão” de 2004-2005. A direita tentava voltar ao governo, a partir do desgaste do PT. Essas manobras fracassaram não somente em 2006, mas também em 2010 (primeira eleição de Dilma Rousseff), 2012 (eleição de Fernando Haddad 1a Prefeitura da cidade de São Paulo) e em 2014 (reeleição de Dilma).

Da “marolinha” ao furacão

O colapso capitalista de 2008 foi contido em escala mundial por meio da inundação do mercado com crédito, em cima de recursos públicos, a migração de capitais para os países atrasados, a escalada da especulação com matérias primas e, fundamentalmente, com o obsceno repasse de recursos públicos para os monopólios.

Essas políticas começaram a apresentar rachaduras, em escala mundial, no ano de 2012. As rachaduras ficaram muito mais evidentes neste ano.

A crise capitalista disparou em escala mundial. A Alemanha e o Japão, as duas principais potências industriais desenvolvidas, entraram em recessão. A América Latina foi atingida em cheio pela queda dos preços das matérias primas e a crescente dependência das importações. A inflação e o desemprego, que constituem dois dos principais sintomas da desestabilização do regime, aceleraram na região.

O endividamento se generalizou em escala mundial e várias bolhas financeiras ameaçam estourar enquanto a economia real entrou em recessão.

O movimento operário ainda se encontra numa situação semi paralisada, mas têm aumentado os sintomas da movimentação que são cada vez maiores. As greves mais radicalizadas, as que superam os mecanismos de contenção da burocracia sindical, têm acontecido em setores secundários. Nenhuma das categorias centrais, como os metalúrgicos ou os petroleiros, tem entrado em movimento. Mas se trata de uma situação temporária.

A burguesia não conseguiu colocar em pé uma política alternativa ao neoliberalismo para conter a crise por causa do gigantesco parasitismo.

Para o próximo período, está colocado um novo colapso capitalista mundial que, inevitavelmente, levará a classe operária a entrar em movimento novamente, tanto no Brasil como no mundo.

A retomada do movimento operário da década de 1980 acontecerá numa perspectiva superior, devido ao enfraquecimento do capitalismo em escala mundial, o que acelerará o desenvolvimento das tendências revolucionárias. Da mesma maneira que aconteceu na década de 1980, estará colocada a necessidade da formação de partidos operários, revolucionários e de massas, a partir do próprio movimento operário. Já houve alguns sintomas preliminares neste sentido com a tentativa de formação do PT (Partido de los Trabajadores) na Bolívia.

SÉRIE COMPLETA:

Parte 1 – Refluxo e burocratização

https://alejandroacosta.net/2015/10/28/neoliberalismo-e-esquerda-parte-1/

Parte 2 – A ascensão do movimento de massas no Brasil

https://alejandroacosta.net/2015/10/28/neoliberalismo-e-esquerda-parte-2/

Parte 3 – O refluxo do movimento operário no Brasil

https://alejandroacosta.net/2015/10/28/neoliberalismo-e-esquerda-parte-3/

Neoliberalismo e esquerda – Parte 2

A ascensão do movimento de massas no Brasil

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No Brasil, o movimento de massas, que experimentou forte ascensão no início da década de 1960, tinha sido contido por meio da ditadura militar. O movimento estudantil, em 1968, foi derrotado. Durante o período mais feroz da ditadura, liderado pelo General Garrastazu Médici (1968-1974), foi imposto o AI5 (Ato Institucional Número 5), promulgado no mês de dezembro de 1968.

As massas foram mantidas pacificadas por meio do chamado “Milagre Brasileiro”, quando houve abundância de emprego apesar dos salários continuarem baixos e os direitos trabalhistas terem sido atacados pela ditadura militar. O movimento operário, que tinha vivido uma forte ascensão, no início da década de 1960, entrou em sono profundo.

Com a crise mundial de 1974, a situação política evoluiu rapidamente. Nesse mesmo ano, o partido da ditadura, o Arena, sofreu uma expressiva derrota eleitoral para o partido consentido pela ditadura, o PMDB. Em 1977, estourou o movimento estudantil apesar das leis repressivas. Em 1978, entrou em cena o setor de ponta da classe operária, com a greve da Scania, em São Bernardo do Campo. Em 1979, aconteceram grandes greves em todo o chamado ABC paulista que, em 1980, se estenderam para a cidade de São Paulo.

A crise foi contida por meio das políticas recessivas implementadas pelo então ministro da Fazenda, Delfim Neto, entre 1980 e 1983. Mas a contenção foi temporária. A situação do período apresenta semelhanças com a situação atual.

A política recessiva foi implodida com a vitória eleitoral do PMDB no sudeste, em 1982, e as fortes mobilizações do movimento popular e de desempregados que culminaram com a invasão do Palácio dos Bandeirantes, na cidade de São Paulo, durante o governo de Franco Montoro, em 1983.

Em 1983, aconteceu uma nova ascensão do movimento grevista, assim como da luta no campo. No dia 21 de julho, a Comissão Pró-CUT convocou uma greve geral que contou com a adesão de mais de três milhões de trabalhadores. No final do mês de agosto, foi fundada a CUT (Central Única dos Trabalhadores), após os setores classistas da CUT Pela Base terem tomado o controle de mais de 1.500 sindicatos ligados aos pelegos da ditadura militar. A CUT apareceu como a alternativa de massas ao PT que tinha sido rapidamente controlado pela burocracia sindical lulista e intelectuais pequeno burgueses.

Em 1984, aconteceu a campanha das Diretas Já! que foi contida pela frente popular formada pelo PT, PCB, PDT e PCdoB, e dirigida pelo PMDB.

No ano de 1985, aconteceu o pico da luta operária e camponesa no Brasil. Foram mais de 15 mil greves, grande parte delas radicalizadas. No campo, a luta pela terra entrou em forte ascensão. Foi fundado o MST (Movimento dos Sem Terra), com centenas de milhares de trabalhadores rurais.

A CUT Pela Base conquistou a maioria da direção da CUT Regional da Grande São Paulo em 1985, com 87% dos votos. No congresso estadual, que aconteceu em meados do anos seguinte, a CUT Pela Base também venceu. No congresso nacional da CUT, que aconteceu a seguir, a CUT Pela Base quase venceu.

A burguesia tentou conter o movimento operário e camponês por meio dos chamados planos Cruzado. Esta foi a base do fortalecimento da burocracia sindical lulista, agrupada na Articulação, contra a CUT Pela Base, num processo que foi consolidado em quase uma década. Em 1988, a burocracia sindical, com o apoio da esquerda pequeno burguesa, conseguiu paralisar a CUT.

Durante o período, a esquerda pequeno burguesa agrupada no PCB e no PCdoB não participaram da CUT, mas da CGT. Este partido foi trazido para a CUT pela Convergência Socialista (principal grupo que formou o PSTU) já no refluxo alegando de que se tratava de um “partido operário”.

A derrota do Lula nas eleições de 1989 aconteceu por meio da fraude, encabeçada pela direita pró-imperialista, mas que contou com a complacência da esquerda burguesa. A vitória do PT teria aberto uma crise revolucionária naquele momento, devido às bandeiras levantadas e a que o movimento operário ainda não tinha sido contido.

Coube ao então presidente Collor de Mello impor as primeiras políticas “neoliberais”, que viriam a ser consolidadas, de maneira um tanto tardia, em relação aos demais países, durante os governos de FHC.

SÉRIE COMPLETA:

Parte 1 – Refluxo e burocratização

https://alejandroacosta.net/2015/10/28/neoliberalismo-e-esquerda-parte-1/

Parte 2 – A ascensão do movimento de massas no Brasil

https://alejandroacosta.net/2015/10/28/neoliberalismo-e-esquerda-parte-2/

Parte 3 – O refluxo do movimento operário no Brasil

https://alejandroacosta.net/2015/10/28/neoliberalismo-e-esquerda-parte-3/

Neoliberalismo e esquerda – Parte 1

Refluxo e burocratização

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Na década de 1960, os chamados “Anos Dourados” do capitalismo mundial chegavam ao fim nos países desenvolvidos. A crise de 1967 acelerou a inflação e o desemprego. Esta foi a base material dos movimentos estudantis de 1968, que se aceleraram a partir do repúdio da agressão imperialista ao Vietnam.

Em 1971, a Administração de Richard Nixon, nos Estados Unidos, aplicou o calote da desvinculação do dólar do padrão ouro devido à impossibilidade de enfrentar os crescentes gastos da Guerra do Vietnam. Era o fim da “ordem” estabelecida pelos acordos de Bretton Woods de 1944 pela qual os Estados Unidos se comprometiam a manter a conversibilidade do dólar ao ouro e os demais países o passavam a usar como principal lastro para as próprias moedas.

Em 1974, explodiu a chamada crise mundial do petróleo que esteve na base do colapso das políticas “keynesianas”, da nova escalada da inflação e do desemprego, e do colapso das ditaduras militares com as quais o imperialismo norte-americano tinha inundado os países atrasados. O “keynesianismo” foi a política aplicada pelos governos das potências centrais com o objetivo de conter a crise capitalista aberta em 1929, em cima do aumento dos gastos públicos, principalmente, direcionados para obras de infraestrutura e gastos militares. Mas, na realidade, a contenção da crise de 1929 somente aconteceu em cima da brutal destruição das forças produtivas durante a Segunda Guerra Mundial. O esforço de reconstrução da Europa em escombros, por meio do Plano Marshall, a partir de 1948, impulsionou um período de relativa prosperidade nos países desenvolvidos que durou por, aproximadamente, 20 anos e que teve como lápide a crise mundial do petróleo de 1974, em grande medida, impulsionada pelos gigantescos gastos consumidos pela Guerra do Vietnam.

Um novo ciclo de revoluções se abriu em cima do impulso da crise capitalista. A Revolução de Portugal, de 1974, foi o tiro de largada. A Revolução no Irã, em 1979, o país mais forte do Oriente Médio e o principal instrumento do imperialismo norte-americano para controlar a região, foi o ponto culminante. A crise revolucionária que se abriu na Polônia, em 1980, colocou abaixo os regimes estalinistas na Europa Oriental e na própria União Soviética.

O movimento operário experimentou uma forte ascensão em escala mundial. No início da década de 1980, a inflação oficial superou os 20% anuais nos Estados Unidos.

A contenção do movimento operário aconteceu após a derrota da greve dos mineiros do carvão na Inglaterra (1984), que durou um ano, e da greve dos controladores aéreos nos Estados Unidos (1985), que resultou na demissão de 13 mil trabalhadores, e com a entrada dos trabalhadores chineses no mercado mundial ganhando salários miseráveis. Assim começava a aplicação das chamadas políticas “neoliberais”, em escala mundial.

O movimento grevista foi duramente atacado, com demissões das lideranças, além de demissões em massa. Importantes setores industriais foram migrados dos países desenvolvidos para os países atrasados, principalmente para o México, a China e outros países da Ásia. Um novo enorme número de trabalhadores, com salários miseráveis, foi incorporado ao mercado mundial, no final da década de 1980 e no início da década de 1990, a partir do colapso da antiga União Soviética.

O chamado “neoliberalismo” se transformou na política do conjunto da burguesia mundial para conter a crise. A esquerda burguesa e pequeno burguesa em geral, assim como a burocracia sindical, se transformaram em instrumentos dessa política no Brasil e no mundo.

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Parte 1 – Refluxo e burocratização

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Parte 2 – A ascensão do movimento de massas no Brasil

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Parte 3 – O refluxo do movimento operário no Brasil

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