O QUE FAZER? (perante o aprofundamento da crise)

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TESE: A política revolucionária, neste momento, passa pelo agrupamento dos revolucionários proletários em cima das bandeiras históricas da classe operária (tais como a luta por um governo operário, pelo controle operário das fábricas e outras). O dever dos revolucionários proletários, neste momento, passa pela formação de um jornal revolucionário, para todo o Brasil, que se transforme no coração de um grupo revolucionário de agitação e propaganda que terá como tarefa ligar os revolucionários ao movimento operário que, de maneira inevitável, deverá entrar em ascensão no próximo período.

 

ANÁLISE:

 

Neoliberalismo, refluxo, burocratização da esquerda e nova esquerda revolucionária

 

  1. Na década de 1960, os chamados “Anos Dourados” do capitalismo mundial chegavam ao fim nos países desenvolvidos. A crise capitalista de 1967 acelerou a inflação e o desemprego. Esta foi a base material dos movimentos estudantis de 1968, que se aceleraram a partir do repúdio à agressão imperialista contra o Vietnam.
  2. Em 1971, a Administração de Richard Nixon, nos Estados Unidos, aplicou o calote da desvinculação do dólar do padrão ouro devido à impossibilidade de enfrentar os crescentes gastos da Guerra do Vietnam. Era o fim da “ordem” estabelecida pelos acordos de Bretton Woods, de 1944, pela qual os Estados Unidos tinham se comprometido a manter a conversibilidade do dólar ao ouro enquanto os demais países passaram a usar o dólar como o principal lastro para as moedas locais.
  3. O “keynesianismo” foi a política aplicada pelos governos das potências centrais com o objetivo de conter a crise capitalista aberta em 1929, em cima do aumento dos gastos públicos direcionados, principalmente, para obras de infraestrutura e gastos militares. Mas, na realidade, a contenção da crise de 1929 somente foi possível em cima da brutal destruição das forças produtivas que aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial. O esforço de reconstrução da Europa em escombros, por meio do Plano Marshall, a partir de 1948, gerou um período de relativa prosperidade nos países desenvolvidos que durou por, aproximadamente, 20 anos e que teve como lápide a crise mundial do petróleo de 1974, em grande medida, impulsionada pelos gigantescos gastos absorvidos pela Guerra do Vietnam.
  4. Em 1974, explodiu a chamada crise mundial do petróleo que esteve na base do colapso das políticas “keynesianas” (altos investimentos públicos em obras de infraestrutura e armamento). A inflação e o desemprego escalaram. As ditaduras militares, que foram impostas pelo imperialismo norte-americano nos países atrasados após o final da Segunda Guerra Mundial, colapsaram. Os mecanismos de contenção do desenvolvimento das tendências revolucionárias apresentaram fraturas por causa da crise capitalista.
  5. Um novo ciclo de revoluções se abriu em cima do aprofundamento da crise capitalista. A Revolução de Portugal, de 1974, foi o tiro de largada. A Revolução no Irã, em 1979, foi o ponto culminante. O Irã tinha sido desde o sangrento golpe de 1954, promovido pela CIA contra o governo nacionalista de Mossadegh, o país mais forte do Oriente Médio e o principal instrumento do imperialismo norte-americano para controlar a região. A crise revolucionária que se abriu na Polônia, em 1980, com grandes mobilizações operárias, colocou abaixo os regimes estalinistas na Europa Oriental e na própria União Soviética.
  6. No início da década de 1980, a inflação oficial superou os 20% anuais nos Estados Unidos. A desestabilização social levou o movimento operário a experimentar uma forte ascensão em escala mundial.
  7. A contenção do movimento operário aconteceu após a derrota da greve dos mineiros do carvão na Inglaterra (1984), que durou um ano, e da greve dos controladores aéreos nos Estados Unidos (1985), que resultou na demissão de 13 mil trabalhadores, e com a entrada dos trabalhadores chineses no mercado mundial ganhando salários miseráveis. Assim começava a aplicação das chamadas políticas “neoliberais”, em escala mundial, como uma espécie de “keynesianismo às avessas”, liquidação do chamado “estado de bem estar social, entrega das empresas públicas para os grandes capitalistas e contenção do movimento operário por meio da entrada no mercado mundial de centenas de milhões de operários, principalmente chineses, que ganhavam salários miseráveis.
  8. O movimento grevista foi duramente atacado, com demissões das lideranças, além de demissões em massa. Importantes setores industriais foram migrados dos países desenvolvidos para os países atrasados, principalmente para o México, a China e outros países da Ásia. Um novo enorme número de trabalhadores, com salários miseráveis, foi incorporado ao mercado mundial, no final da década de 1980 e no início da década de 1990, a partir do colapso da antiga União Soviética.
  9. O chamado “neoliberalismo” se transformou na política do conjunto da burguesia mundial para conter a crise. A esquerda burguesa e pequeno burguesa em geral, assim como a burocracia sindical, se transformaram em base de apoio e instrumentos dessa política no Brasil e no mundo.
  10. Nos anos de 1990, o movimento grevista entrou em refluxo. As políticas aplicadas durante o governo de Fernando Collor levaram ao fechamento de várias indústrias e às demissões em massa.
  11. O colapso capitalista de 2008 implodiu as políticas neoliberais. A incapacidade para a burguesia colocar em pé uma nova política, alternativa ao neoliberalismo, tem acelerado o enfraquecimento do sistema capitalista mundial. Sobre esta base, é inevitável que o movimento de massas entre em ascensão novamente no próximo período. E sobre esta base, as estruturas burocráticas de contenção da classe operária deverão ser ultrapassadas, o que deverá impulsionar o fortalecimento dos setores classistas, pilar da restruturação de uma nova esquerda revolucionária. A esquerda oportunista atual, burguesa e pequeno burguesa, hiper burocratizada no período neoliberal, está condenada a ser enterrada no lixo da história.

 

O refluxo do movimento operário e o crescente esgotamento da burocratização das organizações de massas e da esquerda (no Brasil)

 

  1. A última grande greve de uma categoria nacional de ponta, aconteceu em 1995, nos petroleiros, e foi quebrada pelo próprio Lula. O movimento metalúrgico acabou sendo paralisado pela burocracia com os planos Cruzado. As últimas greves metalúrgicas importantes aconteceram em 1991, na cidade de São Paulo, na Metal Leve (zona sul de São Paulo) e na Voight (zona oeste de São Paulo).
  2. O refluxo do movimento grevista consolidou o poder da burocracia que, por sua vez, consolidou o refluxo do movimento operário, passando a controlar as principais organizações de massas, a CUT, a UNE e o MST. Se consolidou a frente única entre o PT-PCdoB e as organizações da esquerda pequeno-burguesas. O PSTU, por exemplo, que hoje posa de “anti-governista”, participou da diretoria da CUT na mesma chapa do ultra pelego Vicentinho, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, durante mais de uma década. As direções traidoras do movimento de massas têm funcionado como freio para conter a unificação das reivindicações e das lutas.
  3. Os governos de FHC foram apoiados pela CUT que tinha sido controlada pela ala direita da Articulação, liderada por Vicentinho. A esquerda aderiu a essa política, apoiando-a, ou ficou acuada. O movimento operário ficou acuado por causa da burocratização das suas organizações e as ameaças de demissões em massa, as privatizações, as terceirizações, os ataques aos direitos trabalhistas, a desaceleração industrial, o fechamento de empresas. O endividamento público escalou, a partir de 1992, quando os futuros três figurões da área econômica do governo FHC (Armínio Fraga, futuro presidente do Banco Central, Pedro Malan, futuro ministro de Fazenda e Murilo Portugal, futuro presidente do Tesouro), num final de semana, em Luxemburgo, que é um paraíso fiscal, conseguiram a “mágica” de quase dobrar a dívida pública brasileira. Era a nova política imposta pelo imperialismo norte-americano, liderada pelo então secretário do Tesouro, Brady. Com os novos títulos ultra podres, que passaram de US$ 60 bilhões para US$ 110 bilhões, foram “compradas” as empresas públicas “privatizadas” por preços obscenos que, na maior parte dos casos, não ultrapassaram um décimo do valor.
  4. Os dois governos de FHC entregaram o Brasil aos monopólios, seguindo a receita do chamado Consenso de Washington (1989), o que acabou provocando um enorme desgaste da direita. Após a crise de 1997, na Argentina, que também tinha sido devastada, por meio de processos similares, pelos governos neoliberais de Menem (1989-1999), a crise se espalhou ao Brasil. No início da década passada, aumentou sensivelmente o descontentamento social.
  5. A partir de 2002, as políticas neoliberais implantadas por FHC tinham se esgotado. O movimento grevista começou a despertar, mas foi rapidamente contido com a eleição de Lula à presidência da República, que aconteceu de comum acordo com a direita e o imperialismo. A frente única entre a esquerda frentepopulista, formada pelo PT e pelo PCdoB, e a esquerda pequeno-burguesa, que formava a base de apoio das políticas neoliberais, acabou rachando. A esquerda de conjunto e o movimento operário continuaram paralisados.
  6. A crise do regime político se abriu novamente, com o “escândalo do Mensalão”, em 2004-2005. A direita tentava voltar ao governo desgastando o governo do PT. Essas manobras fracassaram não somente em 2006, mas também em 2010 (primeira eleição de Dilma Rousseff), 2012 (eleição de Fernando Haddad para a Prefeitura da cidade de São Paulo) e em 2014 (reeleição de Dilma).
  7. A partir de 2005, a “frente popular”, encabeçada pelo PT, começou a apresentar sinais de esgotamento devido aos ataques da direita por meio da campanha anti-corrupção (“Mensalão”). Em 2006, foi fundado o Psol, como um racha do PT. O PSTU, que tinha impulsionado o projeto, foi deixado de fora pelos parlamentares do novo Psol.
  8. A partir de 2012, ficaram claras as dificuldades para a direita voltar ao governo por meio das eleições. Por esse motivo, aumentaram as tendências golpistas, principalmente, a partir de junho de 2013, quando a burguesia colocou nas ruas a extrema direita para conter os movimentos do Passe Livre.
  9. As movimentações golpistas têm enfrentado dificuldades relacionadas com as movimentações nas ruas, contra o golpe, e a pressão da situação política internacional, em particular, as eleições presidenciais nos Estados Unidos, que acontecerão neste ano. A Administração Obama tem buscado reduzir as tensões na Ucrânia, no Oriente Médio, no Mar do Sul da China e na América Latina, com o objetivo de apresentar a candidata da “direita tradicional”, Hillary Clinton como a alternativa viável para manter os lucros dos monopólios e a estabilidade social.
  10. A política do imperialismo norte-americano para a América Latina hoje passa pela imposição de governos a la Macri, que avancem na aplicação de ajuste contra os trabalhadores, mas em cima de uma frente única, de maneira negociada em grande medida.
  11. A política da cúpula do PT, neste momento, busca uma “saída negociada” com a direita, o que também é do interesse da própria direita, que teria muitas dificuldades para avançar na aplicação do ajuste contra os trabalhadores sem contar com o apoio do PT ou, alternativamente, sem avançar na direção de um governo muito mais duro.
  12. A burocracia sindical, do movimento camponês, dos movimentos sociais, do movimento estudantil e das organizações de esquerda, amplamente integradas ao regime burguês, enfrentam forte crise como reflexo da crise do sistema capitalista. Essas organizações funcionam, na esmagadora maioria, como organizações cartoriais, com escassas ligações com as massas e, no fundamental, com clara atuação contra os trabalhadores. Esses setores burocráticos tendem a ser rapidamente ultrapassados na ascensão do movimento de massas que está colocado para o próximo período.

 

As tarefas colocadas para os revolucionários proletários

 

  1. A esquerda burguesa e pequeno burguesa, brasileira e mundial, integrada ao regime burguês, enfrenta gigantesca burocratização. Os partidos operários e revolucionários acabaram se desestruturando nas últimas décadas, principalmente por causa dos ataques promovidos contra a classe operária pelo “neoliberalismo”; hoje as ligações com a classe operária são muito escassas, quando há alguma.
  2. A maior parte da esquerda atual se encontra isolada ou integrada ao regime político burguês, tanto por meio das frentes populares, como é o caso do governo do PT no Brasil, ou outras políticas oportunistas, como a da frente de esquerda eleitoral que busca eleger deputados a qualquer custo.
  3. A luta contra o sistema capitalista passa, em primeiro lugar, pela clara identificação dos agentes, das classes, sociais, que disputam o poder político e, fundamentalmente, da classe social que tem como tarefa histórica promover a mudança do capitalismo, paraíso das poucas famílias que dominam o mundo, pela sociedade socialista.
  4. A classe social que tem como tarefa histórica a derrubada do capitalismo é a classe operária. Ela se encontra ainda paralisada. Mas ela deverá acordar no novo período em cima do aprofundamento da crise capitalista que colocará abaixo os colchões de controle social.
  5. No Brasil, está colocada a ascensão das massas que, no final da década de 1970, em cima da crise mundial de 1974, colocou abaixo a ditadura militar; que, em 1983, após a retomada de mais de 1.500 sindicatos pelas oposições classistas, dos pelegos da ditadura militar, fundou a CUT; que em 1985 promoveu mais de 15 mil greves, muitas delas muito radicalizadas. Essa mesma classe operária está começando a acordar do longo sono liberal, e em escala mundial.
  6. O que está colocado é levantar as bandeiras operárias e as bandeiras democráticas que a esquerda oportunista, da “frente popular” encabeçada pelo PT, jogou no lixo. É a luta pelas questões que podem tirar o Brasil, e os demais países, da crise, as medidas que passam pela luta contra o grande capital (o chamado 1% que governa o mundo) e a sobrevivência dos trabalhadores, que, cada vez mais, ficarão encurralados pelos capitalistas.
  7. Sem uma avaliação correta e profunda da realidade e, sobre esta base, o estabelecimento de uma política correta, a luta revolucionária fica inviabilizada ou, pelo menos, errática. Esta luta passa pelo rompimento com a frente popular e a política pequeno burguesa da frente de esquerda eleitoralista (da qual fazem parte o Psol, o PSTU, o PCB e satélites) que, de maneira recorrente e em questões fundamentais, tem se posicionado no mesmo campo da direita.
  8. No presente momento, o objetivo não deveria ser a formação de um partido com apenas um punhado de militantes. O que está colocado é a definição da melhor maneira para intervir na situação política no próximo período, quando o movimento operário deverá entrar em movimento novamente, a burocracia deverá ser ultrapassada e estará colocada a formação de partidos operários, revolucionários e de massas, inclusive em escala mundial.
  9. As organizações da esquerda ligadas ao regime burguês que existem hoje faz tempo que abandonaram os princípios leninistas de organização, a começar pelo jornal. Quem ainda mantém um jornal, o mantém com objetivos de arrecadação, ou como jornais informativos, jornais “amplos” da esquerda etc, que não têm absolutamente nada a ver com a necessidade de estruturar uma organização revolucionária para atuar nos setores de ponta da classe operária. As organizações menores se encontram desligadas da classe operária e, na maior parte das vezes, mergulhadas em tremenda confusão. Há, por exemplo, a confusão entre um jornal operário e um jornal amplo da esquerda; as dificuldades financeiras para sustentar a imprensa; a periodicidade; o conteúdo; a integração à luta revolucionária. Sobre o formato e a facilidade de leitura; sobre a política que deve transmitir etc.
  10. As questões políticas colocadas não negam, e, no sentido contrário, pressupõem, a necessidade de considerar os avanços tecnológicos e as peculiaridades da situação atual. É preciso avaliar em detalhes a melhor maneira de trabalhar com edições em papel e digital. Se as edições digitais podem substituir as edições em papel e em quais circunstâncias. O trabalho nas redes sociais, inclusive com as possibilidades relacionadas com audiovisuais. A periodicidade, o balanço entre as matérias de fundo, as notícias e as denúncias. A distribuição nos setores de ponta da classe operária.
  11. A tarefa colocada é a formação de um grupo de agitação e propaganda que aglutine os revolucionários em torno de um jornal político operário e revolucionário, para todo o Brasil, que seja usado como instrumento de organização real dos próprios revolucionários e da classe operária. O Jornal deverá ser o instrumento fundamental para desenvolver o programa revolucionário que, longe de ser algo estático, deve ser enriquecido com a análise do dia a dia à luz do desenvolvimento da luta de classes.
  12. O foco da atuação do novo agrupamento revolucionário deve ser nos setores de ponta da classe operária. Quando esses setores entram em movimento influenciam profundamente a situação política, como já o vimos acontecer no Brasil nos anos de 1970 e 1980 por exemplo. Esse agrupamento deve ser estruturado, em primeiro lugar, nos moldes estabelecidos por Vladimir I. Lenin no livro O Que Fazer? Lenin orientava a fundar um jornal político para toda a Rússia e que o partido se estruturasse em torno dele.

 

 

Não ao golpismo!

Pelas liberdades democráticas e os direitos dos trabalhadores!

Não ao ajuste!

Pela organização independente dos trabalhadores!

Que a crise seja paga pelos capitalistas!

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Comments

  1. antonio silva says:

    Na sua opinião, o que aconteceria se o PT continuasse no poder, tentando impor suas ideias ditas revolucionárias e editando um documento tal como o Caderno de Teses?

    Curtir

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