AONDE ESTÁ O GOLPE?

QUAL É O PAPEL DA FRENTE POPULAR?

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TESE: A frente popular, encabeçada pelo governo do PT, devido à sua política de conciliação de classes e reiteradas capitulações, longe de combater o golpismo, se converteu numa das principais engrenagens do golpe e da contenção da organização independente da classe operária

DEFINIÇÃO: 

  1. Chamamos “frente popular” (não confundir com a Frente Brasil Popular organizada contra o golpe) os governos encabeçados pelos partidos que mantêm ligações em aliança com a burguesia. Normalmente esses governos aparecem em períodos de grave crise política e atuam como bombeiros da revolução, contra os interesses dos trabalhadores. É o que aconteceu no Brasil a partir de 2003, apesar da “frente popular” ter começado a se estruturar muito antes, principalmente a partir do governo Itamar Franco.
  2. Os bolcheviques, encabeçados por Lenin, formularam a política revolucionária contra a “frente popular” do governo do “socialista” Kerensky, que era definido como um “governo dos capitalistas”, chamando a “explicar pacientemente, todos os dias, o caráter burguês e contrarrevolucionário deste governo”.
  3. A forma mais apurada da “frente popular” aconteceu na “Frente Popular” francesa de meados da década de 1930 e que serviu como base para o ultra oportunista VII Congresso da III Internacional Comunista, encabeçado por Georguis Dimitrov, e que implicou na saída do socialfascismo (ou “terceiro período”, em que a política oficial da III IC dizia que a social democracia e o fascismo eram a mesma coisa) para o abandono total das bandeiras operárias em aras da priorização da luta contra o fascismo.

 

ANÁLISE:

 

No centro do golpismo, o imperialismo

 

  1. aprofundamento da crise capitalista mundial tem aumentado a escalada da ofensiva do imperialismo para fazer com que os povos de todo o mundo, principalmente a classe operária, em particular dos países atrasados, paguem pelo ônus da crise para que os monopólios mantenham os lucros.
  2. No Brasil, o imperialismo, principalmente o imperialismo norte-americano, vem financiando e incentivando a ascensão da direita que em manifestações de rua vem pedir o impeachment e a derrubada do governo de “frente popular”, encabeçado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), da presidenta Dilma Rousseff.
  3. Mas a política impulsionada pela Administração Obama tem buscado manter uma certa estabilidade na América Latina, assim como em escala mundial, em vista às eleições presidenciais que acontecerão nos Estados Unidos neste ano. O fortalecimento de Donald Trump, que corre por fora do aparato do Partido Republicano, e da única alternativa republicana que sobrou, o ultra conservador do Tea Party, Ted Cruz, está agrupando a “direita tradicional” em torno à candidatura “moderada” de Hillary Clinton. Clinton aparece mais à direita que Obama. Mas com o objetivo de viabiliza-la, a Administração Obama tem promovido a redução dos conflitos no Oriente Médio, na Ucrânia, no Mar do Sul da China e na própria América Latina.
  4. O modelo que a ala hegemônica do imperialismo norte-americano atual busca impor na América Latina é o governo de Maurício Macri, na Argentina, que tem conseguido agrupar, por trás dele, setores do peronismo e do kirchnerismo que lhe tem proporcionado uma certa “governabilidade”. Essa política deverá persistir pelo menos até as eleições nos Estados Unidos, a menos que aconteça algum “imprevisto desestabilizador”.
  5. A “frente popular”, encabeçada pelo governo do PT, organiza atrás de si o grosso da burocracia sindical, a maior parte dos movimentos sociais e estudantis, e a vários partidos políticos da esquerda burguesa e pequeno burguesa.
  6. A “frente popular” vem assumindo uma política de conciliações com a direita cada vez mais profundas afim de garantir a estabilidade do governo e a chamada “governabilidade”. A “direita tradicional” também tem interesse na “saída negociada com a “frente popular” encabeçada pelo PT, na atual situação política, pois se trata de uma direita que representa os interesses do imperialismo. As manifestações impulsionadas pela direita, e que têm mobilizado amplos setores da extrema direita, convertem-se em instrumentos de pressão para que o governo petista “guine à direita” e aplique o ajuste contra os trabalhadores.
  7. O eixo fundamental dessa “saída negociada” se encontra na tentativa de aprofundar a aplicação dos “planos de ajuste fiscal”. Trata-se das principais exigências do imperialismo para conter a crise, estabilizar o regime político e garantir os lucros dos monopólios. A aplicação integral dos planos de ajuste só se concretizará com a vitória do golpe e a aplicação de medidas de força contra os direitos sociais e dos trabalhadores. O ajuste, neste momento, tem quatro pontos fundamentais: a Reforma da Previdência (com brutais ataques contra os aposentados), a Reforma Trabalhista (com o objetivo principal de acabar com a CLT), a maior entrega dos recursos naturais (como a Petrobras) e o “corte dos gastos públicos”, ou seja, o amplo corte dos programas sociais e investimentos em infraestrutura para priorizar, ainda mais, o repasse ultra parasitário de recursos públicos para os grandes bancos e especuladores. Com isso os enormes volumes de recursos repassados por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento para as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), que marcaram os governos do PT, devem ser redirecionados para os grandes bancos e a especulação financeira, bem como para o pagamento dos serviços, os juros e as amortizações da dívida pública. Estes se converteram num câncer que, de acordo com a última LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) consome mais de 44% do Orçamento Público Federal.
  8. O governo do PT, assim como fazem os demais governos de cunho nacionalista e de frente popular, aplica os ajustes em determinado grau e de maneira errática. Esses governos não conseguem colocar em pé uma política alternativa ao neoliberalismo e mantêm profundos acordos com a direita e o imperialismo. A reforma da Previdência ficou muito além do que o imperialismo exigia. A reforma Trabalhista não consegue sair do chão por causa da falta de apoio dos sindicatos, que são um dos componentes fundamentais da base do PT. A reforma agrária ficou paralisada, mas o descontentamento no MST é crescente. A entrega do Pré-Sal acabou acontecendo em cima de um acordo entre Dilma e o vampiro José Serra, mas às duras penas e só no Senado. Para evitar a implosão da base de apoio, o governo do PT ensaia uma “saída desenvolvimentista” à crise, com investimentos produtivos e cortes das taxas de juros; essa política vai contra a política do imperialismo.
  9. Embora as políticas de Dilma tenham afetado muito os trabalhadores e sejam uma prova viva das medidas antioperárias e “anti-povo” desse governo ainda são consideradas insuficientes e incapazes de manter os lucros dos monopólios em crise. O próprio PT encontra dificuldades em aplicar integralmente as medidas desejadas pelo imperialismo devido a base eleitoral desse partido, em sua grande maioria trabalhadores, e que conta com o apoio das organizações do movimento de massas, como a CUT, o MST e a UNE todas elas controladas por uma direção extremamente burocrática e que freia a ascensão das massas.

 

A “frente popular” à procura desesperada da “saída negociada”

 

  1. Para tentar acalmar o imperialismo e lhe dar amostras de que o governo petista pode cumprir com suas exigências, Dilma entregou de bandeja vários ministérios e diretorias das empresas públicas para reconhecidos direitistas. Por outro lado, Dilma busca também manter suas alianças com a burguesia nacional, inclusive com seus setores mais reacionários, e por isso entrega o Ministério da Agricultura à maior representante do latifúndio brasileiro, Kátia Abreu, que foi quem garantiu que a reforma agrária fosse paralisada por completo e os recursos públicos fossem destinados ao famigerado agronegócio. O governo petista transformou o governo em uma colcha de retalhos onde existem cada vez mais pedaços direitistas; um verniz pseudo democrático, cada vez mais tênue, para uma ditadura feroz contra a maioria da população.
  2. O imperialismo busca esgotar a “frente popular” fazendo-os aplicar o máximo possível das medidas contra a população. No entanto, se tais medidas forem adotadas pelo governo Dilma a base do PT iria se desintegrar por completo possibilitando que a direita derrotasse com maior facilidade o PT e os sindicatos, uma vez que é esse partido que controla a CUT, os principais sindicatos nacionais e os movimentos sociais. Por isso as capitulações da Frente Popular ante a demanda dos monopólios e do imperialismo devem ser entendidas como uma das engrenagens fundamentais para a vitória do golpe de Estado e a tomada do poder pela direita e devem ser radicalmente denunciadas.
  3. Conforme o PT tem vacilado na aplicação dos planos de “ajustes”, o imperialismo tem passado a pressionar cada vez mais. O Judiciário e a Polícia Federal se encontram na linha de frente das movimentações impulsionadas pela direita e, particularmente, pela extrema direita. Após terem sido mandados para a cadeia vários dirigentes da cúpula do PT no fraudulento e truculento caso do Mensalão, recentemente, houve a tentativa de levar o ex-presidente Lula, a maior figura política do país e dirigente do PT, por meio da, também fraudulenta, “condução coercitiva” para depor à Polícia Federal. Essa movimentação da direita contra o governo de Frente Popular gerou uma grande comoção nas bases do PT que de maneira praticamente espontânea saíram às ruas em defesa de Lula.
  4. Nas principais cidades do país, as bases do PT chegaram a organizar focos de resistência. No Aeroporto de Congonhas, onde se encontrava Lula, o clima era de muita tensão, com boa parte da militância mostrando alta disposição para confrontar a direita. No entanto, a direção petista logo se encarregou de manobrar a combatividade da militância e para impedir a organização dos manifestantes nas ruas concentrou-os nas sedes dos sindicatos. O primeiro balde de água fria foi dado pelo próprio Lula na reunião, realizada logo a seguir na Sede Nacional do PT, em São Paulo. Depois de esfriados os ânimos, a direção petista concentrou toda a militância na Quadra dos Sindicatos dos Bancários, em São Paulo, e Lula voltou a aplicar a velha e conhecida política burocrática, da qual virou um verdadeiro mestre na década de 1980, quando conseguiu quebrar as greves dos metalúrgicos do ABC, com longuíssimos e pastosos discursos que falavam apenas os feitos de Lula quando presidente da República, os seus ótimos relacionamentos com os setores mais reacionários da burguesia mundial, como o fascistoide George W. Bush Jr., e como durante seu governo os bancos e monopólios ganharam fortunas com ele. A mensagem era que a ofensiva do imperialismo e a derrubada do governo Dilma eram injustificadas. Daí em diante, a política assumida por Lula, Dilma e toda a direção petista era a de minar a luta aberta contra o golpe e o avanço da direita e abrir caminho a campanha eleitoral para as eleições municipais do final de 2016 e preparar a campanha presidencial de Lula para 2018. O típico cretinismo parlamentar, o amor incondicional pela democracia burguesa, típico das frentes populares.
  5. O governo do PT tem ficado, cada vez mais, encurralado pelo aprofundamento da crise e pressionado pela direita. A presidente Dilma convocou o ex-presidente Lula para compor seu governo e assumir a cadeira como Ministro-chefe da Casa Civil. Como já havia sido delineado pelo próprio Lula, a ideia não era integrá-lo ao governo para que ele desse outro rumo aos seus planos econômicos e sociais para promover uma mudança estrutural, mas para que uma vez dentro do Planalto pudesse trabalhar para tecer ainda mais acordos com a Oposição de direita na esperança de frear o processo de impeachment. Dentre os resultados da várias manobras, Renan Calheiros, do PMBD, após reuniões com as cúpulas do PT e do Psdb, encaminhou a avaliação do Parlamentarismo, em substituição ao regime presidencialista atual, para o Senado. Essa seria uma saída “excelente” para a direita e o imperialismo, e para o próprio PT. A direita batendo forte nos trabalhadores, enquanto a cúpula do PT segura os mesmos trabalhadores e garante os privilégios.
  6. A ideia do governo do PT de que com Lula á frente o Brasil poderá “retomar o crescimento” não passa de pura demagogia e oculta a gravíssima crise econômica que vem tomando o Brasil conforme o capitalismo agoniza em escala mundial. A saída negociada de Lula e dos burocratas do PT só tem como objetivo usar os trabalhadores e a população explorada como massa de manobra eleitoral e atuar como instrumento de contenção para a luta contra o golpe de Estado, que sim está em andamento, mas que não pode ser combatido por meio das próprias engrenagens golpistas.

 

O esgotamento da base material da “frente popular”

 

  1. O pilar de sustentação da Frente Popular é justamente o controle da burocracia sindical petista sobre a CUT e os movimentos sociais, em primeiro lugar, o MST. A CUT representa a maior organização operária do Brasil e da América Latina, que reúne os setores mais avançados da classe operária brasileira e os mais poderosos, capazes de derrubar governos por inteiro. Sem o acordo da CUT nenhum governo burguês mantém a “governabilidade” no Brasil.
  2. Com a forte queda dos preços das matérias primas nos últimos dois anos, o chamado “modelo de crescimento Lula” se encontra prestes a afundar. As políticas de controle social implantadas durantes os governos Lula tiveram como base o direcionamento do país para a produção e exportação especulativa de meia dúzia de matérias primas. Essa política, que, na prática, foi uma imposição do imperialismo, acelerou a virada do Brasil em direção ao passado, à época da Colônia.
  3. Com a queda na arrecadação e o aperto dos monopólios por uma espoliação maior dos recursos brasileiros, os recursos destinados a manter a “governabilidade petista” mermaram. As empreiteiras, as indústrias e os tubarões do setor da educação viram as verbas públicas mermarem. Os milhares de burocratas sindicais, universitários, dos movimentos sociais e dos partidos políticos da esquerda, que hoje mamam na teta do estado, se encontram ameaçados de perderem sua bonança. A política do “corte nos gastos públicos”, impulsionada pela direita, às ordens do imperialismo, tem como objetivo direcionar ainda mais recursos para os especuladores financeiros.
  4. A “frente popular” brasileira, assim como está acontecendo nos demais países latino-americanos, está se enfraquecendo. O temor à organização independente dos trabalhadores a tem empurrado no sentido de acelerar os acordos com a direita.

 

O apoio à “frente popular” representa a capitulação ao regime burguês e a traição à classe operaria

 

  1. Além de a “frente popular” organizar atrás de si a maior parte das organizações de massas dos trabalhadores, da juventude, dos negros, das mulheres e da população explorada do país, há ainda os grupos e partidos de esquerda que não contam com nenhuma base de massas, mas se mantêm a reboque da política da Frente Popular, em primeiro lugar o PCdoB.
  2. Esses partidos dão um cheque em branco ao governo de Dilma Rousseff. Alguns desses partidos “teorizam” que as capitulações do PT e o próprio plano de ajuste não seria, supostamente, uma engrenagem golpista, mas que, pelo contrário, a luta contra os ataques que a frente popular leva a cabo contra os trabalhadores deve ser deixada de lado e submetida a uma luta maior, que seria a tomada de poder; em abstrato e sem qualquer caraterização de classes. Qualquer semelhança com a política estalinista ultra oportunista do VII Congresso da III Internacional Comunista, estalinista, de 1935, não é mera coincidência. Nesse Congresso, foi imposto a todos os Partidos Comunistas, a partir do relatório elaborado por Gueorgui Dimitrov (intitulado: “A Ofensiva do fascismo e as tarefas da Internacional Comunista na luta pela unidade da classe operária contra o fascismo”), como tarefa fundamental alargar ao máximo a luta contra o fascismo e a guerra ante a ascensão de Hitler ao poder, em janeiro de 1933. Todas as bandeiras da luta histórica da classe operária deviam ser deixadas de lado para lutar contra o fascismo. Desta maneira, a política do chamado Terceiro Período, que considerada que a socialdemocracia também era fascista, foi abandonada. O modelo era a Frente Popular francesa. Essa política permeou todo o período seguinte e está na base dos vários acordos contrarrevolucionários que os burocratas da antiga União Soviética realizaram com o imperialismo (antes, durante e após a Segunda Guerra Mundial) e que teve como corolário a política da Coexistência Pacífica de Nikita Kruschev, do XX e do XXII Congresso do PCUS (Partido Comunista da União Soviética).
  3. Toda organização política, seja ela de esquerda ou de direita, ligada aos trabalhadores ou ao imperialismo, revolucionária ou contrarrevolucionária, coloca no eixo da sua política, em alguma medida, a luta pelo poder. A submissão à política de conciliação de classes da Frente Popular representa abdicar da luta pelo poder pela classe operária. A aplicação do plano de “ajustes fiscais” pelo governo Dilma, e, pior ainda, numa “saída negociada” com a direita, representa uma engrenagem golpista e o abandono até das bandeiras democráticas mais básicas que o Brasil, um país dominado pelo imperialismo, precisa manter em alto para garantir a soberania nacional. E hoje mais do que nunca. Na prática, hoje colocar-se a reboque da frente popular implica não em combater o golpismo impulsionado pelo imperialismo, mas em favorecer o golpismo. Nada muito diferente da política das frentes populares em, praticamente, todos os golpes de estado.

 

A “frente popular” como o instrumento de contenção das massas e das lutas populares após a ditadura militar

 

  1. No Brasil, o movimento de massas que passou por forte ascensão no início da década de 1960, tinha sido contido por meio da ditadura militar. Durante esse período, as massas foram mantidas pacificadas por meio do chamado “Milagre Econômico Brasileiro” (governo do General Médici), quando houve abundância de emprego, apesar dos baixos salários, apesar dos direitos trabalhistas terem sido atacados pela ditadura militar.
  2. Com a crise mundial do petróleo de 1974, que esteve na base da nova escalada da inflação e do desemprego e do colapso das ditaduras militares, a situação política evoluiu rapidamente. Nesse mesmo ano, o partido da ditadura, o Arena (Aliança Renovadora Nacional), sofreu expressivas derrotas eleitorais para o partido consentido pela ditadura, o MDB. Em 1977, apesar das leis repressivas, o movimento estudantil voltou a entrar em cena e foi o pioneiro na luta direta contra a ditadura. Um ano mais tarde, em 1978, o setor de ponta da classe operária, os metalúrgicos, entrou em movimento com a greve deflagrada pelos operários da ferramentaria da Scania, em São Bernardo do Campo. Em 1979, aconteceram grandes greves em todo o chamado ABC paulista que, em 1980, se estenderam para a cidade de São Paulo.
  3. A crise e, nesse primeiro momento, o movimento de massas foram contidos por meio das políticas recessivas implementadas pelo então Ministro da Fazenda Delfim Neto, entre 1980 e 1983. Mas a contenção foi apenas temporária.
  4. A política recessiva da ditadura foi jogada à lona com a vitória eleitoral do PMDB na região sudeste do país, em 1982, e as fortes mobilizações do movimento popular e de desempregados que culminaram com a ocupação do Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, durante o governo de Franco Montoro, em 1983.
  5. Nesse mesmo ano, aconteceu uma nova ascensão do movimento grevista, bem como fortes mobilizações no campo. No dia 21 de julho de 1983, a Comissão Pró-CUT convocou uma greve geral que contou com a adesão de mais de três milhões de trabalhadores. No final do mês de agosto do mesmo ano, foi fundada a CUT (Central Única dos Trabalhadores), após setores classistas da CUT Pela Base terem tomado o controle de mais de 1.500 sindicatos ligados aos pelegos da ditadura militar. Naquele momento, a CUT apareceu como alternativa de massas ao PT que tinha sido rapidamente controlado pela burocracia sindical lulista e intelectuais pequeno-burgueses.
  6. Em 1984, aconteceu a campanha das Diretas Já! que foi contida pela primeira formulação da “frente popular”, que representava um bloco entre as organizações de trabalhadores e representantes da burguesia, formada pelo PT, PDT e PCdoB e dirigida pelo PMDB.
  7. No ano de 1985, acontece o pico da luta operária e camponesa no Brasil. Foram mais de 15 mil greves, sendo a esmagadora maioria radicalizadas. No campo, a luta pela terra entrou em forte ascensão e nesse ano foi fundado o MST (Movimento Sem Terra), com centenas de milhares de trabalhadores rurais.
  8. A burguesia tentou conter o movimento operário e camponês por meio dos chamados planos Cruzado. Esta foi a base do fortalecimento da burocracia sindical liderada por Lula, agrupada na Articulação, a corrente majoritária e que desde então dirige o PT, facilitada pela burocratização da própria CUT Pela Base. Os enfrentamentos entre a Articulação e a CUT PELA BASE se  encerraram com a formação da Frente Popular. A DS, majoritária, e os outros setores centristas  revisionistas logo capitularam para a Articulação e foram à direita rapidamente. Desde então compuseram todos os governos de Frente Popular. Pepe Vargas foi ministro até muito recentemente e Miguel Rosseto continua sendo ministro da Dilma.A partir de 1988, a burocracia sindical, com o apoio da esquerda pequeno-burguesa, na época agrupada, principalmente no PCdoB e no PCB, conseguiu paralisar a CUT e sufocar as greves operárias. A Convergência Socialista (principal grupo que formou o PSTU), fundamentalmente, a partir da adoção das “Teses de 90” passa, com “mala e cuia”, a apoiar a burocracia do PT.
  9. Em 1989, a candidatura presidencial de Lula passou a agregar alguns setores minoritários da burguesia, principalmente o setor mais reacionário da burguesia nacional, o latifúndio. O escolhido para compor a chapa junto a Lula foi o latifundiário José Paulo Bisol que era conhecido na época por estar alinhado com Mário Covas, um dos fundadores do PSDB. A pedido de Lula, Bisol não se filiou nesse partido e sim ao PSB (Partido Socialista Brasileiro), visando a candidatura a vice-presidente.
  10. Lula e a cúpula petista, juntamente com os aliados burgueses, buscaram canalizar todas as expectativas das organizações operárias para o terreno eleitoral, o que continua sendo uma constante até hoje. A política lulista, assumida nessas eleições, era a de que as greves atrapalhavam a candidatura de Lula, o que serviu de base para terminar de estrangular o movimento grevista de conjunto.
  11. A derrota de Lula nas eleições de 1989 aconteceu por meio da fraude, encabeçada pela direita pró-imperialista que contou com a ajuda da esquerda burguesa. Uma eventual vitória do PT poderia ter aberto uma crise revolucionária naquele momento, devido às bandeiras levantadas pelos operários.
  12. Após a vitória, o então presidente Fernando Collor de Melo começou a impor as primeiras políticas “neoliberais” no Brasil, que viriam a ser consolidadas, um tanto quanto de forma tardia, em relação aos demais países latino-americanos, pelos governos de FHC. A aplicação dessas políticas contou com uma frente única da burguesia, apoiada de maneira semivelada pela frente popular e pela esquerda pequeno burguesa.

 

A bancarrota das políticas “neoliberais” e a ascensão do PT ao poder

 

  1. O “neoliberalismo” trouxe à América Latina privatizações em larga escala e a subsequente demissão em massa de milhões de trabalhadores. O atrelamento das economias latino-americanas ao dólar, o fechamento em massa de empresas industriais, a destruição de conquistas históricas dos operários e os reflexos das crises financeiras dos países imperialistas foram responsáveis pela sensível deterioração das condições de vida das massas.
  2. Com isso, o movimento operário entrou em refluxo. As últimas greves metalúrgicas importantes aconteceram em 1991, na cidade de São Paulo. A última grande greve de uma categoria nacional de ponta, os petroleiros, aconteceu em 1995, e foi quebrada pela burocracia lulista.
  3. O período de refluxo consolidou o poder da burocracia petista nos sindicatos e nas principais organizações de massas, a CUT, a UNE e o MST.
  4. Durante esse período, o papel do PT até o final do governo FHC, em 2002, foi fundamental para a tentativa da burguesia de estabilizar o regime político abalado pela crise da ditadura militar, pela ascensão operária do final dos anos de 1970 e início dos anos de 1980, e pela crise econômica. Com o movimento operário acuado, as burocracias sindicais se consolidaram e a CUT passou a ser controlada pela ala direita da Articulação, liderada por Vicentinho, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.
  5. Os dois mandatos de FHC entregaram o Brasil aos monopólios estrangeiros, seguindo a receita do chamado Consenso de Washington (1989), o que levou a um enorme desgaste da direita no Brasil. Após a crise de 1997 na Argentina, que também tinha sido devastada pelos governos neoliberais de Menem (1989-1999), a crise se aprofundou no Brasil.
  6. A partir de 2002, as políticas neoliberais implantadas por FHC tinham se esgotado. O movimento operário ensaiou um despertar, mas foi rapidamente contido pela eleição de Lula à presidência da República, que aconteceu em comum acordo com a direita e o imperialismo.
  7. A Frente única formada entre a esquerda burguesa, PT e PCdoB, e a esquerda pequeno-burguesa (PSTU e PCB), que formava a base de apoio das políticas neoliberais, acabou rachando.
  8. O governo Lula, de cunho nacionalista moderado, no entanto, não chegou ao poder sobre a base da mobilização dos setores operários fundamentais, mas das camadas mais desorganizadas da classe operária. Isso explica o caráter profundamente conciliador com o imperialismo, na mesma medida em que a bancarrota da política neoliberal “forçou” o imperialismo a permitir que a burguesia nacional pudesse, em certa medida, governar, uma vez que não possuía melhores condições de por em prática seus planos à revelia do nacionalismo-burguês. A ascensão das massas levou a governos nacionalistas muito mais radicais na Venezuela, na Bolívia e no Equador, apesar que, em termos ideológicos e até políticos, a diferença com o lulismo é só de grau.
  9. A partir de 2003 o governo frentepopulista de Lula passou a investir em um punhado de programas sociais criados para a população de baixa ou baixíssima renda. Esse foi o colchão social colocada em pé, e sustentado pela “bonança das matérias primas”, para garantir sua popularidade e os altos índices de aprovação. Além dos programas de caráter assistencialista, aumentou o crédito para a população com o objetivo de promover o consumo de bens e serviços, e manter a economia em movimento, seja em produtos tradicionais (alimentos, material de construção etc), ou seja em novos (celulares, DVDs, passagens aéreas etc). O objetivo fundamental era manter os acordos com o imperialismo e os lucros dos grandes banqueiros que, como o próprio Lula o tem dito, nunca ganharam tanto como nos governos dele.
  10. Um dos principais programas assistencialistas de Lula foi o Bolsa-Familia, criado no governo de FHC. Ele foi convertido em uma espécie de renda mínima para todas as famílias brasileiras que comprovassem extrema necessidade. Nessa mesma linha, durante os governos Lula houve um aumento real de 24,25% nos salários mínimos, isso durante seu primeiro mandato, o que possibilitou a dinamização das economias locais menos desenvolvidas no país.
  11. Além disso, para atender aos interesses do capital financeiro o governo Lula passou a expandir o financiamento popular através do crédito consignado, que inclui o aumento do empréstimo à agricultura familiar, como meio de escamotear a reforma agrária, do microcrédito e do processo de “bancarização” de pessoas de baixa renda, o que permitiu aos bancos descontar empréstimos em parcelas mensais retiradas diretamente da folha de pagamento do assalariado ou do aposentado.
  12. Esse tripé, formado pelo Bolsa-familia, pelo aumento do salário mínimo e pela expansão do crédito popular e os referidos programas sociais, serviu especificamente como um amortecedor para a classe operária, onde o governo repassava rios de dinheiro público, em forma de isenções fiscais para que as empresas pudessem produzir, continuava pagando a dívida pública enquanto dava migalhas para a população mais pobre.
  13. Por último, os governos do PT têm sido responsáveis pela cooptação da principais lideranças dos movimentos sindical, social, camponês estudantil e dos principais partidos políticos da esquerda.
  14. O aprofundamento da crise capitalista e o aumento da pressão do imperialismo estão implodindo os pilares de contenção social da “frente popular” brasileira. Ela poderá ganhar fôlego numa eventual aliança, uma saída negociada, com a direita. Mas a crise não deverá reduzir-se, mas deverá aumentar. O mundo caminha para um novo colapso de proporções colossais. A “frente popular” tende a implodir. Os partidos e organizações que compõem a frente popular tendem a rachar, da mesma maneira como acontece com o restante da esquerda pequeno burguesa que se agrupa em cima da chamada “frente de esquerda”. Está colocado, para o próximo período, o surgimento de uma nova esquerda revolucionária em cima da inevitável entrada em movimento da classe operária.

 

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Comments

  1. jeferson bossoni mendes says:

    Querido amigo, gosto muito de suas análises, entretanto, esta tem várias lacunas a meu ver. Quem sabe vc poderia me ajudar a entender. Uma delas: ” Na prática, hoje colocar-se a reboque da frente popular implica não em combater o golpismo impulsionado pelo imperialismo, mas em favorecer o golpismo.” onde me parece que achas que devemos optar pelo Fora Dilma para combater a burguesia e o imperialismo…. Outra é a caracterização do PT como partido burguês, como sabes, a própria burguesa não o aceita como um dos seus…

    Curtido por 1 pessoa

    • 1. ” Na prática, hoje colocar-se a reboque da frente popular implica não em combater o golpismo impulsionado pelo imperialismo, mas em favorecer o golpismo.”
      Ponto 1: entender por “frente popular” o bloco encabeçado pelo governo do PT e não a Frente Brasil Popular
      Ponto 2: ser totalmente CONTRA o Fora Dilma! que é uma política da direita
      Ponto 3: reconhecer que para combater o REAL golpismo é preciso identifica-lo claramente
      Ponto 4: considerar que as sucessivas e gravíssimas capitulações do governo do PT em prol da “governabilidade” não ajuda a combater o golpismo, mas, pelo contrário, abrem passo aos golpistas. E foi exatamente isso o que aconteceu em TODOS os golpes de estado
      Ponto 5: para combater o golpismo é preciso denunciar as capitulações do PT (e não oculta-las); denunciar HOJE a saída negociada, contra os trabalhadores, que está em andamento, como o parlamentarismo que está tramitando no Senado, por exemplo
      Ponto 6: se você for um democrata, levantar e bem alto todas as bandeiras democráticas que estão sendo jogadas na lata do lixo. Se posicionar claramente contra a entrega do Pré-Sal, a Lei Anti-terrorista, a rejeição da auditoria da ultra corrupta dívida pública, as reformas trabalhista e da Previdência; contra os ministros golpistas que fazem parte do gabinete etc etc
      Ponto 7: se você for um revolucionário socialista, se posicionar contra a teoria ultra-oportunista de que tudo deve ser direcionado para combater o golpe e deixar a luta pelas reinvindicacoes operárias para o futuro, que representa uma conhecida traição à classe operária. Algumas dessas traições: 1- Mencheviques em relação ao governo de Kerensky; 2- Stalin após a Revolução de Fevereiro; 3- a frente popular na França e na Espanha; 4- o ultra oportunista VII Congresso da IC estalinista de 1935 (que até levantava bandeiras muito parecidas com as de hoje; e olha que era a luta contra o Hitler e não o disfarce em relação a uma das principais engrenagens golpistas, o próprio governo do PT); 5- Por último, é a clássica teoria dos Dois Blocos, “teorizada” pelo oportunista Pablo, o mesmo que dirigiu a implosão da IV Internacional a partir de 1952
      Ponto 8: participar das manifestações anti-golpe, mas não para dar um cheque em branco ao governo do PT, mas para impulsionar a luta REAL contra o golpe, que tem como objetivo aprofundar a política anti-povo que o governo do PT (e que inclui vários setores da direita) já aplica HOJE. O mesmo sobre os comitês etc

      2. O PT é um partido que representa os interesses de um setor da burguesia, em grande medida, por meio do PMDB. Isso apesar da direção estar encabeçada por elementos das camadas médias da população
      O PT tem como caraterística principal controlar o grosso dos movimentos sindical, camponês, sociais e estudantil. E por meio da cooptação dos dirigentes e algumas migalhas para a população pobre estabelecer um colchão de controle social em beneficio do funcionamento do regime
      Não por acaso, e conforme o próprio Lula repete, os banqueiros nunca ganharam mais dinheiro que nos governos dele
      Muito importante: os governos do PT não aplicaram reforma alguma. As poucas delas deram sequência a programas anteriores
      A própria subida de Lula ao governo em 2003 aconteceu com a bênção do fascistoide George W. Bush Jr e o principal cabo eleitoral foi FHC

      Estes seriam os pontos básicos. Espero que o nosso ponto de vista tenha ficado mais claro
      De qq maneira, estamos à disposição para eventuais esclarecimentos mais detalhados ou profundos.

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