PETRÓLEO E CRISE NO ORIENTE MÉDIO … E NO MUNDO

ARABIA SAUDITA E IRÃ

 

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Recentemente, a monarquia da Arábia Saudita anunciou o rompimento das relações diplomáticas com a República Islâmica do Irã. A razão oficial foi o ataque à embaixada saudita em Teerã, a capital do Irã, por manifestantes em protestos pela execução do mais proeminente líder xiita na Arábia Saudita, o clérigo Nimr al-Nimr, que teriam sido facilitados pelo regime dos aiatolás.

Em seguida, outros países controlados pelos sauditas (Jordânia, Kuwait, Bahrein, Djibuti e Sudão) retiraram os embaixadores do Irã. O Egito e os Emirados Árabes Unidos rebaixaram as relações, sem rompe-las, apesar de encontrar-se num nível já muito baixo. A Turquia e o governo do Curdistão Iraquiano fizeram algumas críticas, mas qualificaram as execuções como assuntos internos dos sauditas. O governo da Nigéria tinha prendido alguns xiitas algumas semanas atrás, a pedido dos sauditas, mas não rompeu relações. Uma situação similar aconteceu no Paquistão. Este país tem na Arábia Saudita por volta de 1,5 milhões de trabalhadores, 500 mil somente na polícia e no exército.

Para camuflar o verdadeiro objetivo da ação, junto com o clérigo xiita foram condenados a morte mais de 45 pessoas, quase todos eles sunitas, por ligações com a al-Qaeda e o Estado Islâmico. Em paralelo, foi assinado um contrato por mais de US$ 1 bilhão para a compra de armas dos Estados Unidos e o destravamento do contrato com a Lockheed, a gigantente norte-americana do setor de armas, por mais de US$ 11 bilhões. Com a Rússia e a China, os sauditas acenaram com novos contratos para a compra de armas, além dos contratos já assinados na última Feira de São Petersburgo.

Os russos, a China e o Iraque se ofereceram como intermediários para tentar rebaixar as tensões. O governo do Irã ordenou à Promotoria Pública acelerar as investigações e chamou a monarquia saudita à distensão.

O clérigo Nimr al-Nimr tinha sido um dos principais líderes dos protestos de 2012, a “primavera árabe” saudita, que teve como foco a Província Oriental, habitada principalmente por xiitas, e onde se encontra o grosso das reserva do petróleo e a própria sede da Aramco, a empresa estatal de petróleo. Na época, os protestos foram sufocados com muita repressão e por meio de um pacote de ajuda econômica para os pobres, que superou os US$ 50 bilhões. Vários líderes foram presos na época e condenados a morte em 2014. Os pobres somam mais de quarta parte dos 20 milhões de habitantes do Reino e são majoritariamente os xiitas da Província Oriental. Mas por que a monarquia saudita decretou as execuções sabendo que poderiam enfraquecer o regime que já enfrenta a aceleração da crise?

 

ARÁBIA SAUDITA: A CRISE DO BALUARTE DO IMPERIALISMO NO ORIENTE MÉDIO

 

A monarquia saudita enfrenta o acelerado aprofundamento da crise capitalista por causa da forte queda dos preços do petróleo. A pobreza avança por causa da carestia da vida, principalmente os preços dos alimentos e a especulação imobiliária.

O déficit fiscal de 2015 superou os US$ 110 bilhões. De manter-se a situação atual, as reservas internacionais evaporariam em cinco anos. A crise da política internacional saudita tem provocado fortes rachaduras no interior da Casa dos Sauds. Os gastos para manter em pé a ditadura encabeçada pelo ex general al-Sisi no Egito, o pântano da guerra do Iêmen, o pântano da guerra da Síria, o distanciamento com a Administração Obama, a crescente aproximação da China com a Rússia às custas do distanciamento com os sauditas.

Somente no Egito, os sauditas têm injetado mais de US$ 12 bilhões, dos quais o repasse de US$ 3 bilhões foi assinado neste mês, mas a economia não tem saído do chão. Além do forte aprofundamento da crise econômica, da indústria têxtil e do turismo, há a crise da segurança interna, com a crescente atuação do Estado Islâmico e de outros grupos radicais que estão tomando o espaço da Irmandade Muçulmana que foi derrocada pelo golpe militar de 2013.

No Iêmen, os sauditas tem fortalecido os bombardeios assassinando milhares de civis. O que começou como quase um passeio na região sul, após a toma do Porto de Aden, se tornou um pântano após a tomada da cidade de Marib e o avanço em direção a Sanaa, a capital do pais, nas regiões montanhosas que são os bastiões dos Houthis, os rebeldes que são apoiados pelo Irã.

Na Síria, aparece de maneira muito clara a política do wahabismo, a versão saudita do Islã, que é muito próxima dos tafquiris radicais, ou salafistas, como o Estado Islâmico e a al-Qaeda. A política golpista na região foi encabeçada pelo chefe dos serviços de inteligência, o príncipe al-Sultan, que foi retirado do cargo há dois anos quando a política exterior saudita começou a entrar em crise.

A partir do mês de junho do ano passado, a Administração Obama se aproximou da Rússia, do Irã e da China com o objetivo de conter a crise no Oriente Médio, a partir da Síria. O apoio aos “grupos rebeldes” pelos sauditas, o Catar, a Jordânia, os Emirados Árabes Unidos e pela Turquia ameaçava implodir a região, da mesma maneira que tinha acontecido na Líbia e na Somália. Com essa nova política, a Arábia Saudita acentuou a crise e, apesar de manter a aliança geral com os Estados Unidos, tentou avançar na direção da ofensiva contra o principal rival na região, o Irã.

 

NO CENTRO DA CRISE: O PETRÓLEO

 

A crise da monarquia saudita veio à tona com as manifestações públicas de vários príncipes contra a política aplicada pelo atual rei Salman, que poderia levar à implosão do Reino. Vários deles pedem a renuncia.

Na base da crise da Arábia Saudita, está a queda vertiginosa dos preços do petróleo que atingiu o menor nível desde 2004.

Uma das políticas que os sauditas poderiam aplicar seria impor a redução da produção a partir da OPEP (Organização dos Produtores de Petróleo). Essa medida é apoiada pela Venezuela, a Angola e a Nigéria, e inclusive pela Rússia que não é membro da OPEP, assim como por todos os países que dependem do petróleo. Mas com o levantamento das sanções contra o Irã, este país deverá passar a colocar no mercado mais de um milhão de barris diários adicionais.

Com a manutenção da produção, os sauditas buscam colocar em xeque a economia da Rússia, da mesma maneira que o fizeram com a antiga União Soviética na década de 1980, do Irã, o principal rival no Oriente Médio, e dos Estados Unidos, onde a Administração Obama tem se distanciado dos sauditas para se aproximar da Rússia e do Irã. Os preços baixos do petróleo inviabilizam a produção a partir do xisto, mesmo com os métodos ultra depredadores. Com a economia norte-americana em crise aumentam as chances da ala direita do imperialismo vencer as eleições presidenciais que acontecerão no final deste ano.

Além dos fatores sobre os quais a burguesia detém um certo controle, há os “incontroláveis”. O aprofundamento da crise capitalista não pode ser controlada por uma determinada política. A maior parte das políticas aplicadas têm na base a tentativa de defender os lucros, na concorrência com os competidores. São as leis do capital em ação e no piloto automático.

Para o próximo período, está colocado um novo colapso capitalista de proporções ainda maiores que o de 2008. Todos os fatores que estavam atuantes em 2008 se encontram presentes e com ainda mais força.

 

 

ARÁBIA SAUDITA E RÚSSIA – AMOR, ÓDIO OU INCESTO?

Sauditas e Russia2

Qual é o verdadeiro significado da aproximação diplomática entre a Rússia e a Arábia Saudita?

No último período, uma verdadeira procissão de figurões da obscurantista Arábia Saudita tem aparecido na Rússia em encontros com o primeiro escalão do governo. O Príncipe Mohammed bin Salman, Ministro da Defesa saudita, se encontrou, em outubro, com Vladimir Putin, o presidente da Federação Russa. A visita do rei Salman a Moscou está prevista para acontecer neste ano.

A monarquia tenta conter o aprofundamento da crise no Oriente Médio que avança, a passos largos, em direção à própria Arábia Saudita. Os sauditas têm entrado em fortes contradições com a Administração Obama que, na tentativa de estabilizar o Oriente Médio tem deixado de lado os aliados tradicionais, os próprios sauditas e satélites, como os Emirados Árabes Unidos e a Jordânia, os sionistas israelenses, o Catar e, até certo ponto, a Turquia. O pior para esses governos, que são aliados tradicionais da direita, e inclusive da extrema direita do imperialismo, é que Obama se aliou aos aliados “poucos confiáveis, como a Rússia e a China, e aos “inimigos”, como o Irã, a milícia libanesa Hizbollah e os curdos.

Os sauditas oferecem uma isca para os russos não “exagerarem” na dose dos ataques aos “rebeldes” que recebem dinheiro dos petrodólares, como o Estado Islâmico, Jabhat al-Nusra, Ahrar al-Sham e Jaysh al-Islam. Essa isca tem três componentes principais, a promessa de uma compra considerável de armas russas, a tomada de medidas que permitam a subida o preço do petróleo e o investimento de US$ 10 bilhões na economia. O russos precisam desesperadamente desses recursos para conter a desestabilização interna. A economia se encontra em recessão há quatro anos. Nas discussões sobre o orçamento público do próximo ano aparecem vários buracos, principalmente nos repasses de recursos para as províncias.

QUEM É O MEU ALIADO?

Os russos têm acolhido com muita desconfiança a proposta da monarquia saudita. Propostas similares já foram feitas em várias ocasiões, mas nunca foram cumpridas. O governo russo aderiu, em 2010, às sanções contra o Irã com esse objetivo, mas quase nada obtiveram dos sauditas. Na última feira de São Petersburgo, que aconteceu há alguns meses, os sauditas assinaram vários contratos com empresas russas, mas ainda longe dos volumes prometidos em 2013 e 2014 quando o então chefe dos serviços de inteligência, o príncipe Bandar il Sultan, queria que os russos retirassem o apoio ao governo sírio do presidente al-Assad.

O afastamento da Rússia do Irã não está colocado para este momento. Apesar do acordo nuclear, o Irã precisaria de quase US$ 200 bilhões em investimentos, e vários anos, para viabilizar a infraestrutura necessária para promover as exportações de gás à Europa numa escala que poderiam torna-lo um competidor à altura da Gazprom, o gigante russo do gás. Até lá, a própria Gazprom poderá controlar uma fatia importante do negócio, contra os interesses do Catar que também busca fornecer gás, por meio da Turquia, mas depende da estabilização da Síria.

O fortalecimento da aliança da Federação Russa com o Irã, e ainda com a inclusão da China, apavora os sauditas. Os regimes da Síria e do Iraque e os Houthis, no Iêmen, são apoiados pelo regime dos aiatolás e, por esse motivo, tentam implodi-la. O Iêmen está se transformando no Vietnam saudita. Os bombardeios e assassinatos da população civil, que acontecem há 260 deixaram um saldo de sete mil mortos. A invasão que deveria ter sido um passeio se transformou num pesadelo quando os sauditas tentaram avançar para as regiões montanhosas, próximas à capital do país, Sanã, reduto tradicional dos Houthis.

Em relação à Turquia, a vitória do partido do primeiro ministro Erdogan favoreceu os russos, pois, apesar das contradições, viabiliza a construção do gasoduto, o Turk Stream, que direcionará gás à Europa. Erdogan também visitará Moscou neste ano.

O esforço saudita de contenção da Rússia se tornou mais complexo e mais difícil de ser negociado. O Oriente Médio é o ponto onde as contradições entre as potências regionais e imperialistas é mais acirrado. No próximo período, conforme a crise capitalista se aprofundar e a desestabilizar se generalizar, poderá dar lugar a confrontos militares em larga escala.

Sauditas e Russia

ARÁBIA SAUDITA – DE PILAR DA ESTABILIDADE A PÁRIA?

Russia Arabia Saudita

O aprofundamento da crise capitalista ameaça implodir um dos principais pilares da estabilidade do Oriente Médio, a Arábia Saudita.

A queda dos preços do petróleo tem provocado a acelerada redução das reservas soberanas, em, aproximadamente, US$ 60 bilhões, nos últimos seis meses, e em quase US$ 80 bilhões desde o início deste ano. As reservas ainda somam mais de US$ 630 bilhões.

Pela primeira vez, nos últimos oito anos, os sauditas venderam títulos públicos; desta vez, por US$ 4 bilhões. Investimentos nos fundos especulativos BackRock e Franklin Templeton têm sido repatriados.

O déficit público esperado para este ano supera os 7,5%. A comparação com a média dos 20% de superávit dos anos passados reflete a escalada da crise.

O aprofundamento da crise no Oriente Médio, a necessidade de suportar aliados, como os golpistas egípcios, e de financiar aliados instáveis como a Turquia e a Rússia, assim como pântano da guerra do Iêmen, que se calcula tenha consumido mais de US$ 7 bilhões, pressionam os sauditas a manterem os gastos em escala ainda superior do período em que o preço do barril do petróleo era o dobro do preço atual.

Com o objetivo de manter a estabilidade social, o novo rei Salman bin Abdulaziz não realizou cortes nos programas sociais no ano passado, mas os aumentou em US$ 30 bilhões.

A especulação imobiliária e a carestia da vida têm se tornado em fatores que podem colocar-se novamente na base de novos protestos das massas, principalmente na regiões habitadas por xiitas, onde as condições de vida são mais precárias.

DA BASE DOS PETRODÓLARES A FONTE DE CRISE

Os acordos que aconteceram entre a monarquia saudita e o imperialismo norte-americano, no início da década de 1970, permitiram manter a ditadura mundial do dólar apesar do calote promovido a partir da abolição do padrão ouro. Foi um enorme golpe sobre o mundo, que permitiu manter a ditadura do dólar em cima das vendas de petróleo que passaram a ser realizadas fundamentalmente nessa moeda.

A emissão desenfreada de dólares norte-americanos, que inundam o mercado mundial, se encontra na base da especulação financeira, o coração da economia capitalista parasitária. Com o colapso capitalista de 2008, os principais esquemas especulativos saltaram pelos ares. Com o objetivo de manter o sistema funcionando, foram direcionados trilhões para resgatar os monopólios. Os mecanismos de contenção apresentaram fortes rachaduras em 2012, que, em 2015, se transformaram em verdadeiras fendas.

Os Estados Unidos impulsionaram a exploração de petróleo a partir do xisto, deixando de importar enormes volumes não somente da Arábia Saudita, mas também de todos os principais fornecedores. Os sauditas passaram a aplicar uma política duplamente “pecaminosa”. Por uma parte se transformaram no principal fornecedor de petróleo dos chineses, com os quais o comercio começou a ser desenvolvido em moedas locais. Ao mesmo tempo, os serviços de inteligência sauditas, aliados dos sionistas, se envolveram em toda uma série de golpes de estado, em vários países árabes, com o objetivo de conter o avanço das revoluções árabes e de aumentar o controle da região, em contraposição ao Irã, o pior inimigo, e em rota de colisão com a política aplicada pela Administração Obama para estabilizar o Oriente Médio.

O Iêmen, o Egito, a Síria, o Iraque e a Líbia já fazem parte da tendência à “somalização” da região, na direção à própria Arábia Saudita que representa o coração do Oriente Médio. Mas a situação está se tornando explosiva também em vários pontos do Golfo Pérsico, como o Kuwait e o Bahrein, além da Jordânia, a Palestina e o Líbano.

ARÁBIA SAUDITA – UM PÂNTANO CHAMADO IÊMEN

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A crise no Iêmen avançou numa escala que tem feito a reação mundial levantar os alarmes. Quando a Arábia Saudita avançou militarmente para invadir o país, há três meses, a propaganda da imprensa reacionária dizia que seria um passeio, que em apenas algumas semanas o país seria controlado, que os Houthis seriam barridos do mapa e o governo fantoche de Abd Rabbu Mansour Hadi, derrocado pelos Houthis em janeiro, seria recolocado no poder. Essa propaganda foi muito similar às que têm precedido todas as últimas invasões.

A invasão e controle do estratégico porto de Aden, localizado no sul do Iêmen, foi uma tarefa relativamente fácil. Cercados pela marinha saudita, pelas tropas da coalisão (que incluem o Egito, Marrocos, Catar e os Emirados Árabes Unidos), os Houthis e as tropas leais ao ex presidente Saleh somente conseguiram resistir durante algumas semanas. O que a imprensa imperialista quase não divulgou é que a al-Qaeda no Iêmen e o recém criado Estado Islâmico no Iêmen atuaram do lado dos sauditas. Após a derrota dos Houthis em Aden, esses “rebeldes” controlaram parte da cidade, lado a lado, com as tropas da coalisão.

O avanço sobre as demais cidades do sul do país foi relativamente rápido, uma espécie de passeio pelas planícies. Os problemas começaram a escalar quando os sauditas prepararam uma grande ofensiva contra a capital do Iêmen, Sanaa, a partir da cidade de Marib. A resistência nas regiões montanhosas tem sido enorme. Os bombardeios indiscriminados têm deixado milhares de mortos e feridos civis, o que tem aumentado o apoio às forças da resistência.

OS “TERRORISTAS”: MEUS AMIGOS, MEUS INIMIGOS

As monarquias árabes, a Turquia e os sionistas israelenses tentam chegar a um acordo com os russos e com a Administração Obama na Síria, em relação à contenção do Estado Islâmico e da al-Qaeda. Os russos tentam evitar a repetição do pântano do Afeganistão, em que a antiga União Soviética se meteu, buscando negociações para estabelecer uma saída “consensual”.

As potências regionais têm usado os vários grupos “rebeldes” para impor os próprios interesses. O interesse da Arábia Saudita, por exemplo, passa pela contenção da influência do Irã, o arqui-inimigo, e o fornecimento de gás à Europa, a partir do megacampo Pars (Catar), passando pela Síria e a Turquia.

A política que está colapsando na Síria é exatamente a mesma a que os sauditas estão aplicando no Iêmen e que os está colocando contra as cordas. A partir do mês de abril de 2015, o Estado Islâmico tem crescido sobre a cobertura, ou a falta de combate, dos sauditas, que têm se aliado com qualquer grupo que esteja disposto a combater os Houthis. A ofensiva no sul dependeu da aliança com o chamado “Movimento do Sudeste”, outro grupo “rebelde” anti-Houthi.

O financiamento do Estado Islâmico e da AQAP (al-Qaeda na Península Arábica) não conta com a comercialização do petróleo como acontece na Síria. É evidente que o grosso do financiamento tem como origem a própria Arábia Saudita. É brincando com fogo que aparecem as queimaduras.

“BATATA QUENTE” A LA SAUDITA: A MINORIA XIITA

Os problemas da Arábia Saudita não acabam com os Houthis, que contam com o apoio do governo do Irã. As atrocidades cometidas estão movimentando a minoria xiita, contra os sauditas, tanto no Iêmen como na Província Oriental da Arábia Saudita, que pode fortalecer os Houthis e, ao mesmo tempo, aumentar a violência sectária com o Estado Islâmico e a al-Qaeda, que, apesar da aliança, mantêm ataques contra a coalisão, tanto no Iêmen como em território saudita.

Os Houthis têm promovido vários ataques contra bases militares sauditas dentro do território da Arábia Saudita.

A política saudita contra o Irã, o estado xiita, fracassou. A tentativa de estrangular a economia não somente não funcionou, mas, com o levantamento das sanções, a economia iraniana deverá melhorar. A política exterior anti-Irã, no Oriente Médio, também fracassou e a lápide é a aliança do Irã com o governo norte-americano na Síria e no Iraque. A Administração Obama “traiu” os sauditas e os sionistas ao não promover a “solução final” contra o regime dos aiatolás.

A queda abrupta dos preços do petróleo está aprofundando a crise da economia razão pela qual os sauditas ofereceram à Federação Russa, que é um aliado próximo do Irã, a entrada na OPEP (Organização Mundial de Petróleo) como membro pleno. Outro rotundo fracasso, pois, ao manter os altos níveis de produção de petróleo, os sauditas buscavam apertar ao cerco contra os russos, como proxies (agentes) da política do imperialismo.

A desestabilização do Iêmen avança em direção à Arábia Saudita, que representa o coração do Oriente Médio.

A formação do Movimento Ahrar al-Najran mostra a dramaticidade da situação. Esse movimento agrupa várias tribos na região ocupada de Najran, desde 1934, e pede a independência da Arábia Saudita. Esta região é uma das mais pobres do país e tem sido vítima dos ataques indiscriminados do exército saudita.

Na província de Qatif, ponto de partida da “primavera árabe” saudita em 2012 e majoritariamente xiita, cresce o movimento Ansarullah sobre o combustível da brutal repressão saudita que se acentuou justamente a partir dos protestos de 2012. Os enfrentamentos têm se tornado cada vez mais violentos, como o mostrou o recente acontecimento no povoado de Awamiyah. Os protestos de massas contra os massacres no Iêmen e a repressão policial não param de crescer, após terem estourado no mês de julho.

O vários movimentos contra a Casa dos Sauds não são centralizados nem atuam de maneira coordenada. Mas tendência é à centralização. O domínio da monarquia absoluta, um dos pilares dos petrodólares norte-americanos, apresenta rachaduras que tende a implodi-lo por dentro.

Uma nova “primavera árabe” saudita aparece no horizonte.

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IÊMEN – O VIETNAM DA ARÁBIA SAUDITA?

UAE soldiers load their military vehicle with rockets during manoeuvres with the French army in the desert of Abu Dhabi May 2, 2012.  AFP PHOTO/KARIM SAHIB

UAE soldiers load their military vehicle with rockets during manoeuvres with the French army in the desert of Abu Dhabi May 2, 2012. AFP PHOTO/KARIM SAHIB

No início deste ano, os Houthis, aliados ao restante das tropas fieis ao ex presidente Ali Abdullah Saleh, avançaram quase sem resistência e tomaram a capital do Iêmen, Sanaa. Menos de dois meses depois passaram a controlar partes importantes do principal porto do país, Áden.

A Arábia Saudita, e a Resistência do Sul, que atua como subordinada, conseguiu reverter a situação há pouco mais de um mês, retomando Áden e lançando uma ofensiva na região sul do país. Após ter dominado as planícies começou uma nova ofensiva na tentativa de recuperar a cidade de Sanna, que enfrenta fortes bombardeiros indiscriminados. Uma grande concentração de tropas está acontecendo na cidade de Marib, com o reforço de soldados do Egito, dos Emirados Árabes Unidos, do Sudão, do Marrocos e do Catar.

O controle total do país pelos sauditas é praticamente impossível e deve leva-los a um pântano. Os Houthis estão fortemente armados, inclusive com mísseis, têm longa experiência militar e dominam as regiões montanhosas e as regiões que fazem fronteira com a Arábia Saudita, inclusive já promoveram várias ofensivas território adentro. Nos últimos dias dezenas de soldados da coalisão invasoras têm sido mortos, inclusive um general saudita.

O uso de tropas em solo e material bélico moderno possibilitou as vitórias do sauditas. Mas o problema será sustenta-las posteriormente. Para isso precisará manter tropas no território do Iêmen, o que ainda abre caminho para retaliações no próprio território, principalmente em regiões muito sensíveis como a Província Oriental, habitada majoritariamente por xiitas, onde aconteceram maciços protestos m 2011.

As guerras entre os sauditas e os iemenies datam desde que foi estabelecida a moderna Arábia Saudita em 1932. As províncias petrolíferas de Najran, Jizan e Asir sempre estiveram em disputa. Apesar dos sauditas terem vencido a Guerra, muitos iemenies não reconhecem a nova fronteira.

Ao mesmo tempo a região oriental do Iêmen é controlada pela al-Qaeda. Conforme forem se abrindo vácuos de poder, a al-Qaeda poderá ocupa-los, abrindo caminho para a atuação do Estado Islâmico e de outros grupos guerrilheiros.

Os Houthis são apoiados pelo Irã e pelo Hizbollah, a milícia libanesa. É provável que haja integrantes dos Quds (a elite da Guarda Revolucionária) e do Hizbollah atuando em solo no Iêmen. As atrocidades contra a população civil tende a reforçar a guerra sectária e amplia-la em escala regional.

A guerra civil no Iêmen volta a colocar, na prática, a possibilidade de um exército invasor vencer uma guerra de guerrilhas como tratando-se de uma guerra regular. Essa é justamente a política da ala direita do imperialismo. Nos próximos meses, provavelmente veremos o Iêmen convertido em mais uma Síria nas barbas do coração do Oriente Médio, a Arábia Saudita, a obscurantista monarquia que é um dos pilares do domínio imperialista na região.

UAE soldiers load their military vehicle with rockets during manoeuvres with the French army in the desert of Abu Dhabi May 2, 2012.  AFP PHOTO/KARIM SAHIB

UAE soldiers load their military vehicle with rockets during manoeuvres with the French army in the desert of Abu Dhabi May 2, 2012. AFP PHOTO/KARIM SAHIB

IEMEN - Yemeni Islah party leader Hmood Al Mikhlafy in the city if Taiz

Yemeni gunmen loyal to the Shiite Houthi movement man a checkpoint  in Sanaa on October 30, 2014. Yemen has fallen deeper into turmoil since an uprising ousted strongman Ali Abdullah Saleh in 2012 after a year of unrest, with rivals, including the Huthi rebels and Al-Qaeda, battling each other.  AFP PHOTO / MOHAMMED HUWAIS

Yemeni gunmen loyal to the Shiite Houthi movement man a checkpoint in Sanaa on October 30, 2014. Yemen has fallen deeper into turmoil since an uprising ousted strongman Ali Abdullah Saleh in 2012 after a year of unrest, with rivals, including the Huthi rebels and Al-Qaeda, battling each other. AFP PHOTO / MOHAMMED HUWAIS

IEMEN - Saudi border guards stand on an armed military vehicle to patrol the Saudi-Yemeni border, in southwestern Saudi Arabia

Yemeni supporters of the Shiite Huthi movement hold a portrait of the movement's leader Abdul-Malik al-Houthi during a demonstration against what they call foreign interference in Yemeni politics on February 27, 2015 in the capital Sanaa. Yemen's President Abedrabbo Mansour Hadi met on February 26, 2015 with UN envoy Jamal Benomar in Aden, as the southern city increasingly became the country's de facto political and diplomatic capital instead of militia-held Sanaa. AFP PHOTO / MOHAMMED HUWAIS

Yemeni supporters of the Shiite Huthi movement hold a portrait of the movement’s leader Abdul-Malik al-Houthi during a demonstration against what they call foreign interference in Yemeni politics on February 27, 2015 in the capital Sanaa. Yemen’s President Abedrabbo Mansour Hadi met on February 26, 2015 with UN envoy Jamal Benomar in Aden, as the southern city increasingly became the country’s de facto political and diplomatic capital instead of militia-held Sanaa. AFP PHOTO / MOHAMMED HUWAIS

IEMENIEMEN0

POR QUE O REI SAUDITA FOI AOS ESTADOS UNIDOS?

-Ou- A política Obama para o Oriente Médio, após os acordos com o Irã

EUA ArabiaRecentemente, o rei da Arábia Saudita, Salman bin Abdulaziz Al Saud, esteve nos Estados Unidos em visita oficial. Além das extravagâncias tradicionais, como o aluguel de um hotel de luxo inteiro para a comitiva, o objetivo principal dos sauditas foi a tentativa de fortalecer as relações desgastadas por causa das diferenças políticas em relação ao Oriente Médio, principalmente em relação à Síria, ao Iêmen e ao acordo nuclear com o Irã.

Na Síria, a divergência principal se encontra em relação aos grupos que devem ser apoiados, embora já seja consenso que al-Assad deverá abandonar o poder. O apoio dos sauditas a grupos ligados a al-Nusra, a al-Qaeda na Síria, tem como objetivo contrarrestar a influencia do Irã na Síria. A Administração Obama busca se distanciar dos grupos islâmicos mais radicais e apoiar grupos mais moderados e abertamente mais pró-imperialistas.

Da mesma maneira, no Iêmen, a Administração Obama busca uma saída negociada com o objetivo de conter o desenvolvimento das tendências revolucionárias na própria Arábia Saudita por causa dos selvagens e recorrentes bombardeios contra a população civil e a que a al-Qaeda, que controla boa parte da região oriental, assim como outros grupos islâmicos, possa ocupar o vácuo dos Houthis no país. Na realidade, no Iêmen, apesar da retórica, a diferença é apenas de grau. Em relação à Síria, as divergências são mais profundas, pois envolvem o papel dos grupos guerrilheiros que, em boa medida, não conseguem ser controlados, e o papel do Irã na estabilização da região. O “wahabismo” saudita se encontra muito próximo do salafismo do Estado Islâmico. Na prática, são sinônimos.

Obama voltou a garantir que o Irã não irá desenvolver a bomba nuclear e que a Arábia Saudita continuará contando com a proteção dos Estados Unidos. A mesma política foi aplicada em relação às demais monarquias da região e ao Egito nas recentes viagens do secretario do Departamento de Estado John Kerry.

Os suprimentos de armas pelos Estados Unidos continuarão a todo vapor inclusive para o governo golpista do Egito.

Saudi's newly appointed King Salman (R) shakes hands with US President Barack Obama at Erga Palace in Riyadh on January 27, 2015. Obama landed in Saudi Arabia with his wife First Lady Michelle Obama to shore up ties with King Salman and offer condolences after the death of his predecessor Abdullah. AFP PHOTO / SAUL LOEB

Saudi King Salman bin Abdulaziz (C) walks surrounded by security officers to receive Bahraini King Hamad bin Isa al-Khalifa (unseen) upon the latter's arrival in Riyadh to attend the Gulf Cooperation Council (GCC) summit on May 5, 2015. AFP PHOTO / FAYEZ NURELDINE

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Saudi's newly appointed King Salman (R) shakes hands with US President Barack Obama at Erga Palace in Riyadh on January 27, 2015. Obama landed in Saudi Arabia with his wife First Lady Michelle Obama to shore up ties with King Salman and offer condolences after the death of his predecessor Abdullah. AFP PHOTO / SAUL LOEB

IÊMEN – QUEM VENCE E QUEM PERDE?

Iêmen

Iêmen

Nos últimos dias, a chamada Resistência do Sudeste, apoiada pela Arábia Saudita, conseguiu tomar a base aérea de al-Anad, localizada ao norte da cidade de Lahj, a apenas 40 quilômetros do estratégico porto de Aden. Os Houthis e as tropas aliadas ao ex presidente Ali Abdullah Saleh foram expulsas do porto de Aden, finalizando o avanço que parecia que iria dominar o país.

Al-Anad é a maior base militar do Iêmen. Ela foi ampliada pelos Estados Unidos que a usaram como ponto de partida das operações contra a al-Qaeda. No mês de março deste ano, quando os Houthis avançaram sobre a região, a base foi abandonada e. desde então, mudou de dono em várias ocasiões.

Os sauditas colocaram em solo 1.500 soldados, aos que se somaram mais 1.500 dos Emirados Árabes Unidos, com tanques e artilharia pesada, além do apoio da aviação. O suprimento de equipamento militar tem crescido de maneira muito considerável e acompanhado pelos especialistas sauditas. Mas os Houthis estão muito longe de terem sido derrotados.

A derrota maior foi sofrida pela 39a. Brigada Blindada, ligada ao ex presidente Ali Abdullah Saleh, que acabou se rendendo à Resistência Suloriental, ligada aos sauditas. Mas boa parte dos milicianos Houthis se retiraram de Aden e se retiraram com o objetivo de se reagruparem na província de Abyan.

Nas últimas semanas, tem acontecido incursões dos milicianos Houthis em território saudita.

POR QUE OS SAUDITAS SE ENVOLVERAM DIRETAMENTE NO CONFLITO?

Iêmen contra a agressão saudita

Iêmen contra a agressão saudita

Os sauditas se envolveram nos combates em terra após terem avaliado que a coalisão dos Hadis, ligado ao presidente Abd Rabboh Mansour Hadi, marionete dos sauditas, teria condições de derrotar os Houthis.

O avanço dos sauditas até a base de al-Anad foi uma espécie de passeio. Mas, os problemas começam, justamente, após a tomada da base. Além de al-Anad o terreno é montanhoso, o que aumenta exponencialmente as dificuldades para enfrentar os Houthis e as tropas ligadas a Saleh.

A destruição da infraestrutura provocada pelos bombardeios sauditas também aumenta as dificuldades para manter o controle da própria região sul do Iêmen e enfrentar o desgaste da guerra de guerrilhas.

A história ensina, mas a burguesia em crise tem encontrado crescentes dificuldades para enfrenta-la, por causa da política do “salve-se quem puder” impulsionada pelo aprofundamento da crise capitalista. Em 2009, a monarquia saudita empreendeu ataques contra os Houthis se adentrando nas regiões montanhosas do Iêmen. Os resultados foram catastróficos.

Hoje, os Houthis estão muito mais fortes que em 2009 e muito mais experimentados, após os combates contra as forças de Hadi e a al-Qaeda. Após a tomada da capital do Iêmen, Aman, grandes estoques militares foram deslocados para os montanhas com o objetivo de preparar-se contra ataques sauditas de maior envergadura.

É evidente que uma vitória militar contra os Houthis não é viável no presente momento. O mais provável é que a política saudita busque uma contenção da pressão desestabilizadora sobre a Arábia Saudita que force um acordo político favorável. A desestabilização tem se acentuado com os acordos que a Administração Obama tem buscado junto ao regime dos aiatolás iranianos. O Irão é a principal potência regional rival da monarquia saudita no Oriente Médio.

A CENOURA E O CASSETETE SAUDITA

Porto de Aden, em Iêmen

Porto de Aden, em Iêmen

A Arábia Saudita representa um dos principais bastiões da reação mundial, uma monarquia absolutista e ultra conservadora, aliada de primeira ordem dos sionistas israelenses e da ala direita do imperialismo norte-americano.

Após o colapso capitalista de 2008, a monarquia começou a ser atingida pelo contágio das revoluções árabes. Revoltas começaram a crescer na Província Oriental, habitada majoritariamente por xiitas (a monarquia e a maioria da população é sunita), onde estão localizadas as principais reservas de petróleo.

A política saudita de contenção foi aplicada sobre a direção do príncipe Bin Sultan, o ex embaixador nos Estados Unidos, por mais de 20 anos, e um dos mentores da al-Qaeda e da guerra contra os soviéticos no Afeganistão. Aliados à ala direita do imperialismo, os sauditas se opuseram à política da Administração Obama, a chamada “contrarrevolução democrática”, e passaram a impulsionar golpes de estados no Oriente Médio (Egito e Qatar) e a armar os “próprios” grupos guerrilheiros. Essa política entrou em colapso há no ano passado , quando a ficou evidente que a Síria e o Iraque estavam entrando em colapso e que o Egito ia pelo mesmo caminho.

Os sauditas têm buscado impulsionar um acordo em relação à Síria se aproximando dos russos. As reuniões, viagens, declarações e contratos comerciais têm sido frequentes. Mas a desestabilização do Oriente Médio alcançou um grau tal que agora fica muito difícil conte-la.

A trégua que os sauditas tentaram colocar em pé, no inicio de julho, não saiu do papel e viu seu fim com a retomada dos bombardeios, pela aviação no dia 28 de julho, no porto de Aden e na província de Lahj. A direção dos Houthis declarou que essa trégua somente beneficiava a al-Qaeda e o Estado Islâmico. O Estado Islâmico local, o Wilayat Sanaa, tem detonado carros bomba em Sanaa, a capital do Iêmen, enquanto o presidente reconhecido pela Arábia Saudita declarava que incorporará as milícias da Resistência Popular anti-Houthi no exército.

A crise no Oriente Médio avança sobre o coração da região, a Arábia Saudita. A desestabilização do principal centro fornecedor de petróleo para o mercado mundial, e, portanto, uma das principais bases da especulação financeira, o coração do capitalismo, tem o potencial de desestabilizar os países desenvolvidos e impulsionar um novo colapso capitalista. O aprofundamento da crise é a base que colocará em movimento a classe operária mundial.

Milicianos Houthis

Milicianos Houthis

Miliciano Houthi

Miliciano Houthi