Ato do dia 9.4 desmarcado: Traição à luta contra o golpe

 

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  1. Na tarde do dia 6 de abril, a Frente Brasil Popular (FBP) anunciou que a Assembleia Sindical e Popular convocada para o dia 9, sábado, no Vale do Anhangabau, em São Paulo, foi cancelada. No comunicado não havia maiores explicações, apenas o fato de que dariam maior atenção a atos menores que serão realizados nos próximos dias. O cancelamento é extremamente grave e prejudicial para a luta anti-golpista por diversos fatores, pois entraremos na semana decisiva sobre o impeachment e a mobilização estava em uma crescente. Para o dia 9, segundo os organizadores, estavam sendo esperados 100 mil pessoas, uma previsão que, diga-se de passagem, era realista.

 

  1. Pelos motivos elencados anteriormente o cancelamento do ato representa uma traição à luta contra o golpe. A manifestação foi desmarcada em razão da política de “saída negociada” do governo do PT diante da crise. Na última semana, diversos blogs pró-governo vêm anunciando um avanço na negociação com partidos como o PP e setores do PMDB apontando esse fato como grande entusiasmo. Neste caso, a luta das massas contra a direita fica completamente subordinada à política da “governabilidade”, ou seja, de acordos feitos por cima. Sendo assim, as organizações que dirigem esse ato subvertem o sentido das manifestações. Quem saiu às ruas pretende derrotar a direita, mas a burocracia da CUT, UNE e outras entidades estão manobrando para que essa mobilização seja apenas um fator de pressão para uma negociação do PT com a direita em situações mais favoráveis.

 

  1. Não bastasse tudo isso, essa política é ruim para os trabalhadores em todos os aspectos. Primeiro, não é possível confiar nos acordos com esses setores, que como mostra a aliança PT-PMDB, eles são muito mais aliados dos golpistas do que do próprio PT. Em segundo lugar, uma questão chave: representa uma traição às reivindicações populares associadas á luta contra o golpe: fim dos monopólios dos meios de comunicação, reforma agrária, defesa do petróleo contra as petrolíferas imperialistas, contra a retirada de direitos trabalhistas etc. Nas negociações pela “governabilidade”, o PT tem sempre sacrificado os direitos da classe operária em detrimento do seu interesse, como ocorreu na negociação entre Dilma Rousseff e José Serra na questão que envolve o modelo de partilha do pré-sal.

 

  1. A conjuntura internacional apresenta alguns obstáculos a concretização do golpe, uma vez que conjunturalmente há um recuo de posições golpistas do imperialismo em diversas partes do mundo. Isso no Brasil se reflete na dificuldade de se formar uma coalizão golpista mais sólida. Nas últimas semanas, por exemplo, a imprensa capitalista adotou uma postura mais defensiva em relação aos ataques que frequentemente faz ao governo Dilma Rousseff. Do mesmo modo, o projeto do parlamentarismo continua tramitando no Parlamento, embora não se fale disso no noticiário. A Frente Popular se apóia nesses fatores para fazer avançar sua “saída negociada”, no entanto, em uma luta contra o golpismo jamais se pode chamar a classe operária e o movimento de massas a recuar. As direções sindicais, populares, camponesas e estudantis deveriam aproveitar que houve um recuo momentâneo do golpismo após os atos dos dias 18 e 31 de março para avançar e ganhar posições contra a direita. No entanto, fica mais uma vez provado que a política de conciliação de classes é incapaz de levar uma luta conseqüente contra a direita e o imperialismo.

 

  1. Os revolucionários devem atuar em uma frente única contra o golpe, mas devem sempre manter sua independência em relação às direções oportunistas e a cada capitulação denunciar essas ações que são contra o desenvolvimento desse movimento de luta. A própria frente popular, por sua política capituladora é, ao mesmo tempo, uma das engrenagens golpistas à medida que impede uma ação efetiva dos trabalhadores contra a direita. A ação da direção do PT e a FBP visam, entre outras coisas, frear o desenvolvimento político que a unidade dos trabalhadores contra a direita está proporcionando. As traições dessas direções devem ser denunciadas com vigor. Por outro lado, os revolucionários devem sempre atuar em um sentido oposto, impulsionando a luta contra a direita e levantando as bandeiras da classe trabalhadora.

 

– Não ao golpe

– Contra as traições das direções oportunistas da frente popular

– Contra o ajuste fiscal

– Que os capitalistas paguem pela crise

 

QUEM É O PRINCIPAL INIMIGO?

(governo do PT, direita, luta contra o golpe e frente única)

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TESE: Diante dos enfrentamentos entre os setores da direita e a frente popular, os revolucionários devem se posicionar contra a direita, porém com independência de classe, com o objetivo de superar a política da frente popular

 

ANÁLISE

  1. A crise entre o PT e a direita representa, atualmente, o principal fator da evolução da situação política nacional. Qualquer análise política séria não pode ignorar as contradições e disputas entre esses dois campos, que representam interesses em disputa de alas diferentes da burguesia.
  2. Para combater o PT, a direita vem há anos colocando em marcha suas “engrenagens golpistas”, que consiste basicamente, neste momento, em uma aliança entre os partidos de direita (representantes direto do Capital e do imperialismo), a imprensa capitalista, o Poder Judiciário e setores empresariais ligados ao Instituto Millenium, que, por sua vez, está ligado ao Instituto Heritage, controlado pela extrema direita norte-americana.
    1. O PT ganhou as eleições de 2002 tendo como principal cabo eleitoral o próprio FHC. Lula foi ao Estados Unidos, junto com a cúpula tucana, para jurar ao fascistoide George Bush Jr. que os interesses do imperialismo continuariam sendo respeitados.
    2. O estouro do escândalo do “Mensalão” em 2005 abriu um novo período na situação política. A burguesia, assim como acontece em escala mundial, usa os governos de frente popular para controlar a situação social, mas, assim que essa tarefa foi comprida, ela busca retornar ao governo. A vitória de Lula no segundo governo manteve a crise aberta.
    3. No segundo semestre de 2012, aconteceu a prisão de dirigentes petistas pelo processo do “Mensalão”. Nas eleições municipais, na mesma semana do primeiro e do segundo turno, aconteceu o julgamento do “Mensalão”. Mesmo assim, o PT venceu as eleições na maior cidade da América do Sul, a cidade de São Paulo. Era um claro sinal da bancarrota eleitoral da direita vinculada ao neoliberalismo que enfrentava crescente crise após o colapso capitalista mundial de 2008.
    4. Em junho de 2013, ocorreu a primeira grande ação de rua da direita, que apoiada por grupos fascistas, cumpriu o papel de controlar as manifestações contra o aumento da passagem do transporte público, excluindo os grupos de esquerda do protesto com o uso da força. Em março de 2014, os golpistas saíram, pela primeira vez, às ruas com identidade própria, em uma marcha convocada por grupos de extrema-direita e intitulada “Marcha da Família com Deus e Pela Liberdade- o retorno”. Em meados do mesmo ano, a direita impulsionou a campanha do “Não Vai Ter Copa”. No início de 2015, tiveram início os atos pelo “Fora Dilma”.
  3. A movimentação da direta brasileira, que, historicamente, sempre esteve vinculada ao capital internacional, despertou uma reação dos setores mais conscientes da classe operária e do movimento de massas. No entanto, mesmo com os campos se delimitando cada vez mais nesta luta entre a esquerda e a direita, ainda existem confusões importantes sobre essa disputa política devido, em primeiro lugar, à política de capitulação de classes impulsionada pela “frente popular” liderada pelo governo do PT. Essa política arrastra os sindicatos ligados à CUT, o MST, a UNE, movimentos sociais e partidos de esquerda. Esta política é nefasta para a organização independente dos trabalhadores, pois, devido ao aprofundamento da crise capitalista, tem abandonado todas as bandeiras operárias e até as bandeiras democráticas em prol da suposta luta contra o golpismo, enquanto faz todo tipo de tramoias nos bastidores na tentativa de conseguir uma “saída negociada” para a crise.
  4. A saída ideal seria um governo de coalisão, a la Macri, que, mesmo sendo uma coalisão frágil, conseguiu imprimir uma certa governabilidade capaz de permitir à direita aplicar o ajuste enquanto a frente popular segura os trabalhadores.
  5. A esquerda pequeno-burguesa, por outro lado, busca negar a existência do conflito entre as duas alas da burguesia e adota ações e palavras de ordem que beneficiam e se alinham com a política da direita, tais como “Fora Todos”, “Eleições Gerais Já” e, em casos mais aberrantes, até mesmo o “Fora Dilma!”. Trata-se da repetição do política estalinista do chamado “Terceiro Período”, do “socialfascismo”, quando a socialdemocracia era identificada com os fascistas.
  6. Os revolucionários não podem se confundir com a direita na crise atual, da mesma maneira que também não podem aderir à política de colaboração de classes da “frente popular”. A suposta “revolta popular”, expressa nas ruas do Brasil no dia 13 de março deste ano, foi o resultado de uma campanha reacionária dos monopólios de comunicação que, com a articulação de outros elementos ligados à extrema direita, busca dirigir a revolta da classe média, arruinada pela crise capitalista, contra a esquerda e, em particular, contra o movimento de massas dos trabalhadores. Não se trata de “revolta popular”, portanto, mas de um movimento reacionário. A luta deles contra o governo do PT é apenas a porta de entrada para uma oposição aos sindicatos, movimentos sociais e posições progressistas em geral. O uso do desespero da classe média pelo capital financeiro para atirá-la contra o movimento operário é uma característica tipicamente de movimentos fascistas, o que explica a presença de grupos de extrema-direita e de um forte sentimento anticomunista nesses atos.
  7. A oposição enérgica às movimentações direitistas é uma obrigação de todo militante revolucionário. Tal oposição não deve admitir tergiversações, nem qualquer forma de conciliação com a direita, pois a política operária não pode em qualquer momento ser confundida com o golpismo.
  8. Essa ofensiva exige a luta em frente única da classe operária para, de forma defensiva, lutar contra essas investidas do imperialismo aliado da direita nacional. Esse tipo de frente tem paralelo na história com as resoluções adotadas pelo III e IV Congresso da Internacional Comunista e da Política de Frente Única elaborada por Leon Trótski para combater a ascensão de Hitler na Alemanha.
  9. Parte-se da necessidade de unificação da classe operária para a luta contra um inimigo comum. A classe operária, no entanto, encontra-se dividida em diversas organizações com diferentes políticas, fato que corresponde ao seu desenvolvimento político desigual. A atual etapa não permitiu ainda a constituição da classe operária em um partido próprio, separado da burguesia. No entanto, as tarefas colocadas no presente período empurram nesse sentido. Por exemplo, a participação da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) no movimento golpista revela a necessidade da união em torno de um inimigo que por meio de um golpe político prepara retrocessos históricos nos direitos dos trabalhadores. A conjuntura política também apresenta ataques desse setor contra as organizações sindicais como um todo, o que exige uma unidade em torno da defesa desse tipo de organização. A contradição entre a necessidade de união e a atual separação da classe operária em diversas organizações só pode ser resolvida pela frente única. Superando as diferenças, diferentes frações dos trabalhadores podem assim se colocar em movimento. Ainda mais, a unificação pode despertar toda uma nova camada operária para a luta.
  10. A frente única está em completa oposição à idéia propagada por setores da esquerda da constituição de um “terceiro campo”. No Brasil, o “terceiro campo” está representado pela política do PSTU na constituição de um movimento denominado “Unidade de Ação” e, de forma envergonhada, pela política de setores do Psol e do MTST que formam a “Frente Brasil Sem Medo”. As necessidades da classe operária são substituídas pela injúria: “governistas!”. Quando não expressam uma adesão completa aos ideais da direita, o “terceiro campo” mostra uma passividade mascarada de intransigência verbal diante das capitulações da direção do PT. O “terceiro campo” representa, na prática, uma “saída pela tangente” de quem não nega a necessidade de lutar contra a direita, mas achou um lugar confortável de onde não necessitará enfrentar a política conciliadora que a Frente Popular impõe ao movimento de massas. Dotar o movimento de uma política capaz de derrotar a ofensiva da direita e do imperialismo significa romper o cerco imposto a esse movimento pelo PT e seus aliados. Ao invés de uma luta nesse campo, prefere-se atos separados onde fica cada direção política com seu quintal. Essa política covarde se expressa hoje principalmente no MTST, dirigido por Guilherme Boulos.
  11. A unidade de ação com a parcela significativa e majoritária da classe operária sob a direção do PT e de seus aliados (CUT, UNE, MST etc.) leva em consideração o estado real do proletariado brasileiro. Mas essa unidade nunca significa se dissolver na Frente Popular. Na unidade com as direções oportunistas, os revolucionários adotam a política de “marchar separados, golpear juntos”. Na última manifestação do dia 18 de março convocada pela Frente Brasil Popular, ficou clara a disposição de amplos setores dos trabalhadores em lutar contra o golpismo. Mas, da mesma forma, ficou nítido que Lula e a direção petista buscam não um enfrentamento com a direita, mas uma conciliação.
  12. Lula e o PT atuam para manobrar e transformar o movimento anti-golpista em meio de pressão contra a direita para a adoção de uma saída negociada. Trata-se de uma subversão dos anseios daqueles que compareceram às manifestações de rua em todo o País. Para efetivamente lutar contra a direita golpista a classe operária devemos romper as barreiras impostas pelo “lulismo”.
  13. Nesse sentido, os revolucionários integram a frente única, mas não se furtam a denunciar as capitulações de suas direções e a apontar o caminho da luta como o único possível para a vitória.
  14. Atualmente, o próprio movimento de massas começa a dar indícios de que caminha nessa direção. Os estudantes da PUC-SP, por exemplo, contrariando aquilo que dirigentes dos sindicatos dirigidos pelo PT, a UNE etc. sempre pregaram, foram para cima de uma manifestação pró-impeachment. O enfrentamento teve enormes repercussões, sobretudo pela ação da PM que protegeu os ativistas a favor do golpe. E houve várias outras tentativas nesse sentido, contidas pela frente popular. Aos revolucionários cabe seguir e expandir esses exemplos. Sem frente única não pode haver luta efetiva contra o golpe. E sem denúncia e ruptura da política conciliadora do PT não pode haver vitória contra a direita.
  15. Lutar contra o golpe não nega, mas implica em defender as bandeiras democráticas e as bandeiras operárias que a esquerda e a frente popular jogou na lata do lixo.

 

Não ao golpismo!

Pelas liberdades democráticas e os direitos dos trabalhadores!

Não ao ajuste!

Pela organização independente dos trabalhadores!

  • Que a crise seja paga pelos capitalistas!